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A MORTE DA GELADEIRA

Naquele dia que encontrei o meu amigo sozinho na cozinha
Ele me contou que bebia a morte da velha WhiteWestinghouse:
Vinte e três anos de geladeira;
Já era uma entidade na casa.
Pensara em brincar, chamando-a pelo nome,
Depois de brincar com nomes femininos:

Risoleta, Rigoleta,
Maria Mijona(o descongelo dela era um desastre ambiental),
Obsoleta...
 
Os anos haviam se passado e ela era agora a Obsoleta.
 
A nova era nova, tudo novo, etiqueta do IMETRO,
Faixa verde de economia...
 
A Vodca estava fora por conta da mudança...
E mesmo meia hora depois
No congelador da nova
Ainda estava quente...
 
Era menor o congelador da nova,
Um quebra-galho de duplex
Perto do congelador da velha, que
Como congelava:
A Vodca descia cremosa...
E não atacava a garganta!
 
O meu amigo disse-me que bebia a morte da geladeira velha:
De fato; ela estava lá fora, esperando o Disk Entulho
E, mesmo assim, cheia de gelo no congelador!
Havia até umas geladas
Para matar a Vodca quente...
 
- Ela estava na casa quando nasceram as crianças...
Guardou o leite quando o peito secou,
E o Napoleon que eu gostava de beber
Enquanto escutava o Pink Floyd...
 
- Um dia um raio deu um piripaco no motor dela e eu o consertei,
Durou até agora...
- Se quer saber, ainda está viva, mas obsoleta:
Eu tenho que fazer a minha parte para não aquecer mais o Planeta!
 
E falando baixinho essas bobagens que não se diz nem para amigo,
Mas, a Vodca quente:...
- Lembro-me até do frescor da minha mulher...
- Mas, se quer saber, até agora ela ainda é assim para mim...
 
-Fresca?
Perguntei.
 
- Sim!
 
- Mas, espera aí? Fresca como?
- O frescor da menina, é o que eu quis dizer...
 
- Sim, claro! Acho que é essa geladeira...
- Como?
- Demora para gelar a Vodca e me pega no contra-pé...
- Ah... A velha gelava mais?
- Oh! Se gelava, pelo menos mais rápido, em compensação,
Hoje ela esquenta melhor...
- Desculpa, não entendi?
- Nada, nada, eu pensava na mulher...
-Ah...
- Quer morrer, cara? Beba essa coisa quente...
- Quem?
- A Vodca!
- Ah...
 
-E a geladeira?...
- Pois é, morreu! Quero ver contar para as crianças,
Elas ainda não se deram conta, por causa da presença da nova...
- Fala sério! Tu achas mesmos que elas...
- Sei lá! Fui eu quem se casou com a mãe deles
Quando só tínhamos um ao outro, a geladeira, umas geladas e eu e ela...
Se ela me esquentava, nela eu me refrigerava;
Quando ela me refrigerava, na outra eu me aquecia...
 
- Tens certeza que é só a Vodca quente?
- Não! Vodca quente e sentimentalismo...
Mas, não podemos continuar aquecendo o Mundo,
Temos que fazer a nossa parte;
A obsoleta vai para o lixo:
Que pena que não dá para fazer o mesmo com o Bush...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 03/02/2007
Reeditado em 03/02/2007
Código do texto: T367794

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 61 anos
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Chico Steffanello