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MOTOR DAS HORAS

MOTOR DAS HORAS
Lembranças compridas

Tempo em que o crepúsculo
Puxava cadeiras para a calçada
Nelas assentava pessoas
Que esperavam a noite descer
Redonda, sobre as conversas indefesas.

Tempo quando os animais falavam
Podendo-se crer nas estórias compridas
Que esticavam o rabo sobre o sono
Das crianças, que mora em terras estranhas
Distantes e desconhecidas

Meu coração de homem amassa
Uma pasta e guina n´outra direção.

Tempo quando as famílias
Reuniam-se aos domingos
Em volta de mesas mais antigas ainda
Para comemorar com galinha, macarronada e maionese, a serena vida.

Meu coração de homem guina.

Tempo: os anos passam e cada palavra
Acumula-se na cristaleira dos ouvidos
As pessoas afastaram as cadeiras
Quando a tarde arrastou as conversas
Para dentro das salas, sobre os sofás de couro

As TVs em preto e branco.

A noite despencava, pesada, disforme
Arrelumiando os faróis dos autos
Que foram surgindo de cada esquina
As crianças foram esquecendo as estórias
Que os pais perderam o gosto de contar.

Outra direção.
As moças casadoiras envelheceram
Os filhos que elas não tiveram, suspiram.
Os velhos morreram
Os novos partiram
Os que ficavam, sonhavam com a viagem.
Os que viajaram,
Sonhavam com as cadeiras à tarde.

Os filhos tornaram-se visitantes
Os pais, para eles, preparavam almoços
Antigos que eles recordavam ao longe
E, de perto, pareciam-lhes ridículos.
Por fim, deixaram de vir e escreviam.

Mas cartas não beija,. Não aquecem abraços
De mãe saudosa e pai, sério e triste.
As presenças rarearam, cartas esparsas
Por causa de um tal de tempo
Que, lá, era desconhecido.

Meu coração perde o controle.

Os pais tornaram-se saudades.
O amor e as promessas de: volto logo!
foram sendo esquecidas
Nas trincheiras de quitinetes escondidas
Dentro do ombro de cidades desconhecidas.

Os pais faziam viagens longuíssimas
Para verem suas filhas crescidas.
Pediam ajuda: esperam na estação.
Chegavam de madrugada
Com o corpo frio e alma assustada.

Voltavam, pressurosos, à casa em Minas
Com olhar saudoso
Alma remida
Por haverem abandonado o lar
Para constatar a suspeita de suas vidas:

Perdidos estavam os filhos
Não haveria amor que resistisse
Ao sonho deles de que, um dia,
Voltassem e reinventassem toda aquela alegria:
Os filhos esqueciam os sonhos; os pais perdiam as crias.

Os filhos tornaram-se pais.
Os pais eram avós à distância
Que os netos conheciam por fotos
Que os pais guardavam como relíquias.
Por fim, o apreço findou. As fotos, perdidas.

Meu coração acelera sobre o caminho.

Os filhos, aos poucos,
Tornaram-se homens
Romperam o cordão com mão decidida
Os pais, de longe, tornaram-se “a família”
Que, desesperados, com mãos trêmulas o cordão recolhiam:

Nada havia na outra ponta
A família tentava deter a separação
Dos filhos que o coração pressentia
Para eles, seriam sempre crianças
As crianças, homens agora, esqueciam.

Até tudo tornar-se saudade
Os filhos não lembravam
Quando lembravam, não criam
Que aquele passado fora realidade que lhes pertencera um dia

Meu coração, tonto, desgoverna-se.

Os pais reuniam os parentes
Para falar dos filhos
Ressuscitavam lembranças
Como se houvessem já morrido:
Rezavam sua fé pelos desaparecidos.

Os filhos, em suas andanças
Não percebiam a ferida alastrada
No coração daqueles que os amavam
Seguiam seu destino com olhos perdidos
Com o progresso sobre os ombros, esqueciam.

Até tornar-se fantasia.
Contavam as aventuras aos filhos
Coisas que sequer tinham sido.
Os pais falavam de seus meninos:
Da grande coragem, de como eram felizes.

Os filhos, antes de dormir
O dever cumprido
Às vezes lembravam, sonhavam
De como felizes tinham sido
Quando, sem essa coragem, eram meninos.

Meu coração ultrapassa o pensamento

Por fim, o esquecimento
Os velhos, perdidas as esperanças
Aguardavam que um dia tivessem tempo.
Eles, as saudades recolhidas
Sequer lembravam daquele tempo de suas vidas

Finalmente, o tempo.
O tempo carcomeu a ambos.
Devorou os velhos
Erosou os filhos
Cresceu-lhes as crias

As crias dos filhos vão à Minas
Visitar terras sagradas, a “família”
Voltavam para os lares citadinos
Imaginando como seus pais
Puderam deixar a paz dos lugares vistos.

As lápides aumentam o segredo
As crias, impressionadas
Prosseguem no progresso
Impávidos, sem laços para romper
Olham os céus e lançam-se à descoberta

De novos ares, lugares, novas gentes
Que possam comprar, vender
Produzir o progresso urgente.
Os filhos, ficam orgulhando-se
De suas crias a crescer, crescer...


jgmoreira
Enviado por jgmoreira em 10/02/2007
Código do texto: T376725


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Sobre o autor
jgmoreira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 61 anos
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