poema de aniversário

toco o teclado

com os olhos mais velhos, hoje,

e com as mãos longes,

e o coração ansioso...

ainda, às vezes, tenho medo, — bem mais do que já tive:

um medo de que a vida esteja indo rápido demais.

e um medo de que possa estar tudo errado

comigo.

(não em relação a Deus, creio eu;

em relação aos homens,

porque são eles que são próximos de mim.)

junto, no bornal do pensamento, várias pedras,

— as que lancei e as que não lancei — e,

com o estilingue da memória, percebo

que o arremesso e a falta são sempre para frente.

então, todo o meu mundo se volta para o hoje e o amanhã

e para os meus entes queridos,

família e amigos,

quem deles sobreviveu, mais do que quem deles já se foi.

percebo o quanto eu fui infantil, todos os dias,

e o quanto eu sempre fui um bobão;

esperando sempre o abraço dos outros, desejando, imensamente, o

[abraço dos outros,

querendo, calorosamente, o abraço dos outros,

para que eu pudesse dormir mais tranquilo.

mas, talvez,

eu tenha esquecido de abraçar...

hoje, depois de bastante tempo,

eu consigo olhar para o meu pensamento e ser cuidadoso,

mas a vida

é impetuosa. a vida não me deu trégua.

me mandou de um estado a outro,

do líquido ao gasoso,

sem me permitir parar e refletir.

hiperativamente.

a vida me ensinou abrupta, sem me permitir assimilar.

me precaveu, sem me dar tempo para eu sentar e me lamentar.

me disse coisas fortes, chatas.

me falou coisas imensamente desconfortantes

e verdades como tapas na cara, sem eu poder jamais me redimir,

nem hoje,

quando paro e penso sobre tudo isso.

tem dias em que choro,

mas, na maioria deles, eu não quis mais chorar.

me recusei, hoje, a me deprimir.

ora, se ontem eu brincava pelas ruas da Penha,

pela poeira,

subia em árvores

e era tão feliz, e hoje estou aqui,

amanhã não estarei mais;

então não vou chorar,

não vou me deprimir.

— só quando não der para aguentar,

só quando não der para fingir.

hoje, o meu dedo sobre o teclado parece errabundo,

sem destino nenhum,

sem ponto nenhum de chegada

e partida.

mistura o passado com o presente e não espera,

— senão esse medo de que todos se afastem de mim.

de que todos tenham se cansado de mim.

de que já não suportem minhas imbecilidades,

minha boca que não para de falar,

minha mania de querer saber demais,

de falar besteiras,

de dar conselhos velhos,

de filosofar,

de ser espontâneo e leviano,

de errar no julgamento,

de ficar bravo e esperar curar quieto; de pouco compartilhar, eu acho,

mas muito me intrometer, ser inconveniente,

— querer ser bom, e ser mau,

querer ser legal,

e ser inconveniente,

inconveniente,

nervoso,

chato, egoísta, — todo para dentro de mim...

medo de que ninguém mais me perdoe,

de que a justiça me condene,

sabendo que não sou mais imune às leis

nem à fé.

já não sou criança, hoje.

hoje, já sou muito mais velho

e o tempo

não me perdoa mais.

hoje, eu tenho vontade de dizer tudo ao contrário,

mas a vida se me mostra aos olhos nítida

e não é um sonho.

a vida

é vida demais.

intensa,

ela jamais pergunta.

ela não vai parar.

até que chegue

o meu último aniversário.