dentro de mim

brota uma força invencível,

invisível,

um afago de carinho e uma espada n’outra mão.

o medo de morrer se anula

perante a crença de que se manifeste o sonho,

em broto,

em realidade-flor,

aos poucos, de espinho em espinho formulando o vermelho

entre folhas secas e temperos

e por sobre a terra rachada do sol discorde

e da estupidez.

com meu regador, com meus dedos de amor,

encaro fuzis e metralhadoras

e volto pra casa mais íntegro, a cada dia;

enquanto outras pessoas assistem à televisão sem saber

que não existem,

que só assistem, — que desexistem,

que desintegram,

que se tornam

cus

por onde as fezes caem

(só me perdoem a palavra suja,

da boca às vezes voam revoltas que não sabemos controlar).

dentro de mim

é inviolável esse arder de gritos,

esse fogo infernal de flores.

mesmo que ninguém acredite. mesmo que ninguém me ouça.

mesmo que riam de mim. mesmo que eu passe em

vão.

mas ainda assim creio na minha voz

silente,

solenemente,

visitando memórias e outras vontades,

modificando, transformando

e, enfim, se realizando,

como transpassasse em melodia os corações...

e essa é a única crença que em mim ainda me importa...

a crença em que nossa alma ainda é grande

e em que as mãos um dia formem

buquês,

em vez de exércitos.