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Os meio mortos

Ah, me lembro bem de quando estive com vcs,
costurando miçangas numa linha que sempre estourava,
estourava sempre...

Falávamos de remédio, às vezes, mas,
na maior parte,
estávamos sob o seu efeito
e não falávamos tanto.
Nossos olhos tbm
não eram lá muito expressivos,
eles eram perdidos, sem emoção,
os de todos nós, - sem exceção, sem qualquer exceção.
A não ser os dos enfermeiros e enfermeiras
rijos e rijas,
de olhos fixos para a fila dos medicamentos,
para a fila do banho,
para a fila da escova e da pasta de dente,
para a fila do refeitório,
para a fila do cigarro...

Ah, sim, a melhor fila, a única que nos importava,
a do cigarro!
...aquele cigarro engolido, tragado fielmente
e já com saudade,
com a esperança de um próximo,
antes de acabar ainda!

Ah, quando não se podia fumar!...
Então era esfregar as mãos uma na outra ansioso por chegar o dia da alta,
por voltar para o mundo e sair passear de noite,
na noite. Até as coisas mais tolas do dia a dia faziam saudade.

Às vezes pensávamos em querer morrer, lembro bem,
mas não tínhamos cadarços nos tênis,
nem relógio nós tínhamos
e não tínhamos celulares para chamar ninguém,
para negociar objetos pontiagudos
que nos matassem...
(Ou talvez não tivéssemos mais criatividade).
Tínhamos muros altos, bem altos.
Tínhamos sempre muros, por todos os lados.
Nem céu não tínhamos por demais,
e quando o tínhamos
ficava embaçado com a nossa cabeça – não pelo pensamento turvo,
mas pela retração como efeito do medicamento,
babas no canto da boca,
olhos que olhavam para nada,
mente quase inerte.

Tínhamos Raul Seixas...
Que incrível como todos sabíamos puxar uma, duas,
dez canções do Raulzito, e cantávamos quase a nadar em música,
e ouvíamos as delirantes religiosas a gritar da janela suas visões,
e todos os cantos ocupados,
havia os que pensavam que eu era Jesus, por causa do meu cabelo comprido,
e os que ficavam acompanhados sozinhos nos intervalos do pátio
falando o tempo todo,
mentes bastante estranhas por detrás da cabeça baixa,
da quietude e inquietude,
e, em algum momento, um surto,
e os drogaditos de um lado,
e os psicóticos,
e nós ali... acocorados como galinhas a ciscar o espaço por dentro...

Parecia às vezes que nunca ia acabar,
que as vozes, que os vultos, que o pensamento precisava de Haldol,
tal qual o paracetamol,
e precisava de Amplictil e Lexotan,
desde o dormir à noite até de manhã,
e precisava de sossega-leão,
e de razão...

Era estar aqui envolto de um mundo sonhado,
e não era sonho bom,
dava enjoo... Precisava de injeções
e, depois, de muito tempo para acordar, mesmo quando de olhos já bem abertos!

Nossa! Que coisa! Éramos tão inúteis!
Éramos extremamente inúteis
e nós sabíamos disso!
E por isso sobrevivemos. Não chegamos a ficar presos lá.

Depois de uns dias lá dentro estávamos gordos,
embora não fortes, -
nossas pálpebras caídas, o branco dos olhos amarelo,
e nossa cor amarela,
senão pálida,
mórbida.

Era como se estivéssemos zumbis!
Só que pulamos o muro.
- Como tivemos força para pular o muro?
Como conseguimos subir e saltar lá de cima
sem nos matar?

Não, não nos matamos!
Estamos vivos
e trabalhando. Chegamos até mesmo a amar!
Perdemos até o medo de dirigir
e não tomamos mais remédios que nos façam adormecer alertas ao volante!
Conseguimos, hj, cuspir de vez,
sem ficar com uma tira imensa de saliva pendurada até o chão!

Eu me lembro muito bem de quando estava com vcs
e, às vezes, quando ouço um barulho estranho, uma voz,
vejo uma sombra ou
converso comigo... às vezes,
tomo um susto e fico morto de medo!
Mas sigo avante, busco andar avante reto bem pouco olhando para trás...
para que o passado não me leve de volta para lá.
andré boniatti
Enviado por andré boniatti em 07/12/2014
Reeditado em 08/02/2015
Código do texto: T5061766
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
andré boniatti
Corbélia - Paraná - Brasil
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andré boniatti