eu! não cansarei de lutar

por mais que essas forças das trevas,

das mais fundas trevas sombrias,

onde zumbis-carrapatos confabulam famintos cofres

e pensamentos monárquicos...

por mais que os assaltos e os saques à minha fé e à minha esperança

sejam diuturnamente maquiavélicos,

sejam maliciosamente amparados pela promotoria pública e

pelos revólveres municipais...

por mais que não haja no poema palavras melhores,

em beleza maiores,

já que roubam soturnamente de nosso coração

nossos direitos e liberdades...

gente estrúmica...

por mais que não haja o mais:

todos os nossos sonhos e ideais de partilha e de igualdade,

e de respeito,

tombados como defuntos,

— e que as armas, e que as bombas

arrasem o meu lote

já baldio...

por mais...

eu não cansarei de lutar!

eu não cansarei de lutar!

assinem papéis irrisórios e afrontas,

tomem tudo como deles,

pequenas mimadas almas mesquinhas!

engulam o meu coração ainda ensaguentado

salivantes!

mas o que é essencial em mim:

o povo

que habita dentro de mim,

a democracia que brada — desde as vozes de meus irmãos —,

a história daqueles que derrubaram montanhas e fortalezas

com canetas e peito ao vento,

o texto que escreveram os intrépidos companheiros passados,

presentes aqui,

a lei primordial da COMUNIDADE

— esta a me guiar, como bandeira —

tudo isso, meu desejo utópico, meu anseio socialista,

meu sonho de todos sermos mesmo iguais,

isto só:

não me deixará perecer!

não me deixará — cansar de lutar!

sem grades na memória,

sem portas obstruindo o coração de subir à boca

e de poder falar!

bradarão então alto, comigo:

eu! não cansarei de lutar!

e diremos em coro: — eu te encaro de frente,

tempestade, nuvem cinza da política,

asquerosa repugnância desmedida!

eu te encaro de frente

sem trégua,

em cordão a cantar!

contra o teu insulto à democracia:

eu! não cansarei de lutar!

eu não cansarei de lutar!

e eu...

sou muitos!