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Gostar de gostar

Como  pode um ser improvável,
Entre seres, gostar de amar?
Gostar e se perder, gostar e desgostar,
Gostar, amar, desamar? De modo contínuo,
E até de olhos abertos, gostar?

Como pode, desejo saber, a criatura afetiva,
Abandonada, em rotatividade total, de outra forma
Mover-se ao mesmo tempo, e gostar?
Gostar do lixo que as ondas trazem às areias,
E do que elas enterram, e do que, no zéfiro oceânico,
É sal, ou necessitam de ternura, ou de simples marear?

Gostar falsamente das palmeiras no desabitado,
Do que quer dizer adoração expectante,
Gostar do inabitável, do atrevido,
Dum jardim ressequido, dum chão seco,
E dum coração insensível, e duma rua em fantasia,
E dum pássaro ladrão.

Esta a nossa sina: gostar de maneira desmedida,
Disseminada por acontecimentos falaciosos ou inexistentes,
De concessão infinita dum perfeito desconhecimento,
Que na valva abandonada do gostar a procura inerme,
Resignada, de mais e mais querer.

Gostar da ausência do gostar, e do  desejo de gostar da coisa tácita,
E do tocar implícito, e do desejo sem fim.

R J Cardoso
Enviado por R J Cardoso em 24/07/2007
Reeditado em 24/07/2007
Código do texto: T577178
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
R J Cardoso
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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R J Cardoso

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