enquanto você dormia

enquanto você dormia,

eu fiz tanta coisa

de que você não sabia:

eu olhei o mar

e tentei me afogar;

eu lancei-me à vida,

à frente dos carros, contra skinheads,

ateus e católicos da inquisição,

e você não!

eu gritei bem alto,

levei pedras na cabeça,

fiquei tonto,

fiquei bobo,

fiquei doente e ligeiramente mórbido, amarelo,

esquizofrênico:

mas você não viu.

você ficou sob as cobertas, aconchegadamente.

quando eu rangia os dentes,

quando eu tremelicava com o frio,

você ficou sob as cobertas,

aconchegadamente.

eu não:

eu me angustiei; doeu meu estômago,

rasguei minha pele,

tomei gasolina,

eu tentei me afogar...

cravei desde o umbigo até a ponta baixa do coração

uma adaga afiada, que assim carregava,

pra cima e pra baixo, pensando

em morrer.

até perceber que eu não era você.

que eu jamais o ia ser.

que o mundo era outra coisa que você não havia pensado:

que eu não ia pro inferno; que eu não tinha

que ser forte;

que eu não precisava me curvar;

que eu podia ser eu! como quer que eu fosse;

o quanto fosse isso possível...

que eu podia desafiá-lo e bater contra sua cara

os seus problemas pré-concebidos,

os seus dilemas interessados;

ir contra o seu Deus, inventado, que já não me dizia nada,

que é incompatível com cada coração!

depois disso eu me fiz homem

e nunca mais

me matei a mim mesmo!