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MINHA MÃE SE FOI

À Dalva Francisco de Camargo Cardoso 10/03/1933-20/10/2009.

...Hoje faz mais um ano
Dalva, minha mãe se foi
A seis dias do meu aniversário
Sem brilho, sem fama
Sem grana, sem posses
Sem vivas

Mãe preta pobre periférica
Não vende jornal
Não é notícia
Apareceria
Se fosse lucrativa manchete social
Se fosse liderança eleitoral
Se da Miss Brasil fosse rival
Se fosse grande caso de policia
Até sobrinhos, filhos e netos seus
Hipnotizados pelos mercados
Pra ela viram o rosto
Ou a querem apenas para encosto

Minha mãe era doméstica
Arrumadeira, babá, cozinheira
Cabeleireira, costureira, lavadeira
Estrela artista dona de casa
Cantava Carmem, Dalva, Elza, Angela, Eliseth
E outras rainhas do rádio em fundo de quintal

Do jeito dela
Entre torto e reto amou e odiou
Os filhos que deu luz
Os filhos que a outros entregou
Os filhos que abandonou
Os filhos que abortou
Os filhos que foram sua recompensa
Os filhos que sepultou
Os filhos que foram seu karma
Os filhos que foram a sua cruz

Eu e minha mãe
Fomos sementes lançadas nas pedras
Fomos como óleo e água
Sua lembrança tece meu poema
Em ausências, conflitos, crises, culpas, mágoas
Esparsos e rasos momentos
Tivemos para um feliz versejar
Eram monossílabas nossas conversas
Fomos mãe e filho em terreno movediço
Família edificada em alicerce arenoso

Neste novelo
Enredo de novela
Arquipélago de interrogações
O poema não sabe dizer
Se minha mãe foi Judas
Se minha mãe foi Madalena
Se minha mãe foi mártir
Se minha foi mercenária
Se minha mãe foi otária
Ou em meio a muitas
Foi apenas mais uma mulher negra
Apagada pela borracha da história

Feito pássaro de asas cortadas
Aspirando alturas
Fugas de fomes e cárceres
Agarrou-se a meios náufragos
Perdeu seu rumo, saiu do prumo
Quando eles naufragaram
Aqualtune, Carolina, Dandara
Luíza Mahin, Tereza de Benguela, Maria Quitéria
Fênix minha mãe não conseguiu ser
Com eles se afogou

A seis dias do meu aniversário
Dalva, minha mãe se foi
Hoje faz mais um ano
Seus olhos, seus olhares
Sua uva em folha duas vezes viúva
Aos setenta e seis murchou seca
Sem amigos, sem obra seminal
Sem namorado, sem príncipe enrolado
Para encantar seus castelos
Dela só um retrato restou

E com certeza
Igual a outras tantas mães mulheres
Atormentada por carências, medos e pesadelos
Sedenta de afetos e desejos
Dobrados, guardados, rezados em silêncios...

Oubí Inaê Kibuko, Cidade Tiradentes, 20/10/2017.

OUBÍ INAÊ KIBUKO
Enviado por OUBÍ INAÊ KIBUKO em 20/10/2017
Reeditado em 23/10/2017
Código do texto: T6148144
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
OUBÍ INAÊ KIBUKO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 64 anos
107 textos (88652 leituras)
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OUBÍ INAÊ KIBUKO