Não sou daqui (Poema da infinita incompreensão)

Não. Não vivo neste mundo. Sou outro.

Não compreendo a linguagem parca com que se

interpenetra o dia a dia. – Estou distante

da forma como se expressam

os homens

e as mulheres,

e mesmo as crianças com que troco palavras.

Sou outro.

Extremamente outro.

Não nasci antes do tempo. Não.

Talvez muito depois do que devia. Ou não.

Nasci entre humanos, que se nascem antes ou depois

têm o infeliz costume de serem sempre iguais,

e sim: eu não sou igual a nós.

O meu mundo é outro

que nós.

O meu mundo é vivo

de uma luz esplêndida e simplíssima,

de uma tez de todo

palpável,

de efemeridades tênues,

de fragilidades infossificáveis...

Como eu me vejo triste entre epígrafes sagradas

que se almejam coladas

nas nuvens

(como se as nuvens tivessem desenhos correlatos

em livros de ciência e tradição)!

Não: O meu mundo não tem gramática normativa

como também não tem

história da religião.

Sinto-me rodeado de coisas predeterminantemente estúpidas

porque tão velhas quanto o presente de dez mil anos

que inexperientemente conservamos

diariamente,

com medo de que sem essa merda toda

não tenhamos verdades.

Que verdades?

É tão difícil que eu não tenha verdades e tenha de aturá-las aos montes!

Tenho pânico e tontice disso! Tenho ânsias de vômito

e diarreias!

O meu mundo é, infelizmente, mais sadio e passageiro,

derradeiro,

como se jamais houvesse amanhecer,

para mim – porque eu morresse amanhã a todo tempo,

perfeitamente entregue à ligeireza natural dos acontecimentos

todos fúteis:

às flores; aos ventos;

aos serenos;

serenatas;

solilóquios;

(a nenhuns filosoficamente

entretanto;

portanto,

em sê-los).

O meu mundo, não lhe falta encantos,

nem lhe há não havê-los.

Como eu me sinto por isso longínquo,

distraído,

apartado socialmente...

Eu não compreendo suas lições de moral.

Eu não entendo o seu apreço a certos costumes.

Eu não entendo a distinção que existe

entre Deus e Mal.

Entendo para que sirvam leis,

mas tão poucas delas, que se resumiriam

em “Não matar!”,

se fosse eu as resenhar.

Mas eu não vou. Não.

Eu não vejo para que colocar meus pensamentos à incompreensão!

O meu mundo existe

como existem a cerveja e o vinho

e como quando se rindo alegre

sem a ninguém comprometer

nem ofender.

Como quando a cozinhar perdido

nos temperos, com a panela fervendo aromas,

com o trabalho feliz dos dias antes

e depois

esquecidos de todo!

Como quando tudo fosse louco,

por mais louco que fosse estar louco!

Ser louco!

Eu não vivo aqui. Eu sou outro.

Eu não entendo você.

Eu não tenho nem ganas de viver.

Cuidar da saúde. Cuidar da virtude.

Eu não nasci para ser amiúde.

Nasci para desgastar-me nessa vaziez de sentido,

porque a mim não me faz noção

o que me têm dito.

Eu não me encontro aqui.

Eu não me encontro aqui.

Eu quisera dissociar-me no espaço-tempo

milênios-luz longe de mim, eu, andré,

vestido para festa,

como fogos de artifício divinos

explodindo altos e espargindo pelo cosmos

insanamente voando a dimensões outras,

porque o meu mundo é outro

e eu não entendo o meu tempo!

Só que a mim enfim nem me vale o morrer,

o suicídio. Do próprio convívio da morte

estou banido.

A mim o que me vale é viver.

Mas estar aparte, eu ou você.

Porque jamais o meu mundo

vamos nós juntos

– já bem o sei –

o Compreender.