Meus berros de palhaço

Meu coração endiabrado ainda flutua nas falcatruas da paixão.

Dispara seu estilingue alucinado nas fronhas brutas do querer

teimoso, estridente, recluso.

Nesse coração aguerrido, de penas bambas, me escoro, aflito,

meio sem jeito, meio sem o que dizer.

Seus dados ainda estão em polvorosa, nada fingidos,

nada içados de mim. Nada percorridos de mim.

- Cadê meus Zorros de plantão? Cadê meu troco que ainda não veio, caramba!

Coração encardido, surrado, desnudo de cuspe asqueiroso,

alquebrado numa quermesse vilã que teima em não acabar nunca.

Suas vértebras de gazela arrebatam meu sangue,

num frenesi que deixaria Deus boquiaberto.

Sabe tanto dos meus versos puídos,

daquelas manhãs ensaboadas de conhaque

que escondo das telhas paridas e esmurradas.

Coração açucarado, de asas cerradas, pedinte louco para

se untar nesse suor ainda proibido, ainda beija-flor.

Implora por voz de sombra, gingado estirado num canto qualquer.

Agora, rendido, pouco sabe do dedilhar da sua máscara,

amassada pelo galope engasgado dos lordes bêbados que passam

rentes ao chão. Pobre chão.

Esse coração coagido de tanto pesar, arqueado, extraviado das minhas

veias mais cruéis, mais desgraçadas pelos socos vaiados dessa fé.

- Tragam de volta meus arreios, meus berros de palhaço...

Quisera ser voraz pra descarregar o arsenal nessas estradas vesgas

que tiraram do meu colo, montanhas de ventos tortos e ilesos faltando tempero.

Agora, sem tarraxas e respingos que tanto me fizeram esgarçar,

retomo o limo, desapegado e feliz. Como estou feliz!

Tão feliz que esqueço dos quitutes de vovó,

das têmporas desalmadas de rei do esgoto,

dos tecos ressoados na serenata que já se remoçou.

Retorno ao palco com vinténs saindo pelo ladrão,

atiçando esse motor que teima em estrear, em rugir.

Certo de fazer valer remendos aturados a golpes de amém.

Aquele tal coração pouco resiste ao bafo enferrujado

das amantes lavadeiras, escravizadas pelo esguio voo dos anos vira-latas.

Então, rendido, descasco as ladainhas que, uma a uma,

desfaço nesses parcos dias ensolarados.

Que teimarem em traduzir o que ladeia meus domínios.

Deixo o coração se refastelar no vão desse rio de águas indomadas,

com gosto de jambo embebido de meretriz santa.

Agora posso morrer muitas vezes,

tentando não cair nas graças do estremecido condão.

Numa morte que o tempo vai esquecer de desarmar, de dizer adeus,

de virar a megera que se dizia nossa salvação,

nosso abençoado bocejo de quero-mais.

Oscar Silbiger
Enviado por Oscar Silbiger em 14/12/2018
Código do texto: T6526577
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