tenho saudades

tenho saudades do céu

que olhava de sobre a terra

em carne viva

das estradas do campo

da minha Penha

de frente às plantações

e longe do mundo

fora do mundo

dentro da minha adolescência tardia

dentro da minha alienação geral

dentro da minha infância

morrida

tenho saudades ainda

este céu

diante do barulho

das panelas de pressão

que perpassam as paredes

de alvenaria

e dos televisores

e das luzes todas acesas

nas casas e nos postes

é tão mais raso

é tão mais ralo

todo deturpado pela artificialidade

da vida citadina

que me proíbe estar andarilho

que me proíbe a tão estranha

minha amada

solidão

de tudo

a noite tem menos brilho

e menor genialidade

não tem mais mito

a noite é a cidade

é os faróis dos carros

e as vitrines acesas

os letreiros calados

e as edífices tristezas

não tenho mais companhias alucinadas

porque meus olhos têm visto estreitos

estou curto

e cheio de eiras

só ficam comigo a lembrança

e a saudade

das estradas do campo

da minha Penha

das estradas em carne viva

da minha vida

inteira