meu coração sem querer

meu coração passeia desarmado

por bairros e cidades,

por campos e delírios,

caindo cego em armadilhas,

entregando-se ao amor,

doidamente…

meu coração, feito semente

de que brotam gestos de ternura infante,

de que brotam braços ávidos por enlaces,

de que brotam dedos cheios de versos

a quem goste e a quem não goste,

de cujas raízes que, pelos pés descalços,

alimentam-se de terra, de chuva,

de sol e de nuvens,

dos deuses tempestivos

naturais e suaves

como a brisa sem mar,

loucos e audazes

como a lua e os sátiros

em meio a pomares,

de tarde,

com sombra

e silêncio.

meu coração, um lenço

que não seca mais lágrimas,

encharcado de suores e dores nas costas,

que limpa o nariz na manga da camiseta

e não se importa com o encardido

das calças jeans...

que não vê motivo para seguir vivo

e por isso mais vive,

e que por isso aceita as coisas inevitáveis,

os tombos, as predileções inconscientes,

as intransigências inconsequentes…

meu coração, que pede apenas amor,

que espera por teu sorriso,

que não tem mais tribulações

mas sabedoria

- maldita sabedoria,

que me faz tão esquisito,

que é burrice, acredito,

que me isola e me faz

cada dia

mais só.

a solidão da minha cerveja no copo,

do meu cigarro na praça,

dos meus gestos sozinhos,

do meu giz nos papéis,

dos meus livros na bolsa,

do meu café na cantina,

dos meus vídeos no youtube,

das minhas aulas na smart tv…

da minha barba nas sextas raspada…

dos meus textos que ninguém

vai ler…

do meu coração,

de que ninguém quer saber…

meus segredos que jamais revelarei...

meu coração, um aparelho que resiste intenso

sempre,

sempre

sem querer.