a vida ensinou-me

a vida não me ensinou muitas mágoas,

nem me deu uma vontade de vivê-la imensa...

me deu 20 aos 10 anos de idade

e 30 aos 15,

e depois me remoçou

e ao invés de velho me fez jovem,

e ao contrário de credos me deu totens

de um totemismo atômico,

de um atomismo mágico

e louco.

a vida me deu a loucura...

me deu hospícios,

mas não me deu amargura.

nenhum rancor resiste ao meu peito bravo

que bate contra as fachadas de família

fechadas

e contra as caras vestidas

de máscaras.

a vida, a minha, assusta-me pelo simples

que de todo tem,

que de inteiro guarda.

não me ensinou a ter mágoas,

quando me fez ver

para além dos meus pés

- pois enquanto querem fixar os pés no chão,

essa gente doente, que sofre,

os meus vão com as sandálias de hermes

sábios de que um dia

os ventos levem-nos,

inevitavelmente.

a vida não me ensinou a temer a morte.

eu fico aqui sentado à sua espera

plácido como um monge

a contemplar aquilo que jamais conquistou,

encarcerado à terra.

não tendo pressa,

nem pedindo demora.

a vida chega, uma hora,

e vai-se logo depois.

quando eu olho para a vida que foi,

não vejo mágoas,

nem tenho tantas lágrimas,

não penso em querer voltar.

penso e às vezes sofro

por que fosse diferente

hoje

para todos,

por que não houvesse mágoas,

para todos,

por que não houvesse lágrimas

senão de risos

ou gargalhadas,

nem houvesse precipícios

ou emboscadas...

eu choro só

por causa da pobreza

e da vileza dos homens

- mas o que fiz eu para

mudar?

a vida ensinou-me tanto

que eu pudera desesperar,

mas não!

não vou me comprometer

com o que não tem

remédio,

já sou triste demais!

a vida ensinou-me a não crer a mais

do que nela mesma.

a vida posta como cartas sobre a mesa

não me interessa nada.

interessa-me perder-me,

tal como vento

a chacoalhar as árvores e as flores

e a dissipar.

não demore deus a me levar!

então, depois, nos ventos e nas águas,

e nos sonhos, e nos olhos

me olhem...

estarei em todo lugar.