aquele menino que eu sou

aquele menino que eu sou

era tão frágil por dentro…

por fora parecia um leão,

um bicho feroz,

um deus imponente dos egípcios,

um apolo entre os gregos,

ogum com os afros…

mas por dentro tem medo.

chora como um bebê no abandono

à porta de alguém que o encontre

e revele carinho,

e o proteja pra sempre.

aquele menino impertinente

a que não ousam responder.

direto na fala, sem freios,

batendo de frente,

cuspindo no sistema,

insistente nos problemas,

cheio de cartas nas mangas,

as quais nunca soube de onde vêm...

se recolhe sozinho encolhido

com o estômago inane e letárgico,

com lágrimas sem lenço,

explodindo de sentimentos

ausentes.

inundo de ausências,

de reticências,

de dormência e sonambulismo.

aquele menino sem siso

que eu sou

e que ainda acredita numa missão,

que se entrega de todo o seu coração,

que ama como quem fosse morrer

ou como quem previsse a morte

de alguém

e por isso quisesse doar

o que nunca pudera ter.

aquele menino que eu sou

e que nunca dormiu tranquilo,

que não soube distinguir entre o bem o mal…

aquele menino ileal

com todas as regras,

que nunca conseguiu se matar

e por isso se atirou ao mundo,

na noite,

claro de sorrisos

e escuro de timidez

e receio,

que caminha pelos becos

e prefere as tempestades e as quedas de luz.

aquele menino que eu fui

e que sempre vou ser.

aquele menino que tenta

mas jamais conseguiu

se esconder.