nesta meia-noite

ah, quando eu era criança

e na pracinha da Penha

o escorregador velho, sujo,

enferrujado e verde,

era toda uma sensação incrível

de quem descia uma montanha russa

tipo beto carreiro world,

onde eu jamais sonhava pisar!

de que eu tinha conhecimento

apenas pela tv aberta,

pelos programas da xuxa,

do gugu liberato,

do faustão

(as grandes porcarias que trocávamos

rodando o botão chiado

do televisor que parecia uma cachopa

de abelha de madeira).

a gente assistia aos jetsons

e jamais imaginava

que um telefone sem fio

poderia passear conosco pelas ruas…

jamais pensava que os orelhões

se tornassem inúteis…

que as fitas cassete fossem superadas

por tecnologias maiores, como discos

laminados

e depois pen drives,

e quiçá um youtube ou o spotify…

para quem fez curso de datilografia

para escrever seus poemas

e de ms-dos

como a tecnologia mais incomum…

para quem brincava

as brincadeiras mais simples

com arminhas de pau,

carrinhos de rolimã

e boizinhos de batata…

para quem comia sorvete seco e paçoquinha

com sodinha, e miliopã,

e pudim de pão

como se fosse de leite condensado…

para quem sonhava sonhos tão pequenos

que não ultrapassavam os limites

do distrito de um pouco mais de 1000 votantes

em que viveu.

ah, hoje estou mais velho

rodeado de bugigangas sem graça,

de celulares que me incomodam

a cada hora que passa,

de carros com lata frouxa

que roubam as almas

das gentes que velam muito mais

pelos bens materiais

que pelos abraços e que pelos laços

de amizade e de amor.

acordo sozinho de novo

e me vejo sozinho em meio ao povo.

porque sozinhos estamos todos

num purgatório interminável,

pagando penas conjuntas

sozinhos.

e aquela memória da infância,

tão simples memória

abnegada,

sem ânsias de riquezas

ou de virtudes,

que eu tinha...

aquela memória é impossível no presente.

ela me esmaga no presente.

ela ultrapassa o presente

num desejo suicida

de tudo derrubar avante,

de tudo abandonar avante,

memória

alarmante

que me faz libertar-me

e voar.

volto ao que há de mais simples em mim,

porque hoje é o dia de fazê-lo,

nesta meia-noite aérea

que sobrevoa os dias

que há mais de trinta anos,

que há mais de vinte anos,

que há dez ou quinze anos me acompanham.

a minha vida inteira é só esta meia-noite

que amanhecerá em umas seis horas

e mais horas adicionará

à receita

do meu dna.

até que se dilua meu corpo em pó

e a minha memória (in memorian)

seja depositada no nada,

nas 00 horas em que resultam

todas as jornadas.

(nesta meia-noite

andré boniatti)