ROGATÓRIA

Prezada Senhora;

Considerando que a vida é curta,

considerando que o tempo é breve,

considerando que há muitas culpas

e que o fardo não é leve;

considerando que o imprevisível

é a única possibilidade previsível,

que o que vemos não é necessariamente visível,

que o tempo pra rir, brincar, deitar e rolar

é tão pouco que é risível;

considerando que as dores são incontáveis,

e os prazeres nem sempre são memoráveis;

que o que se conta é o que conta,

e o que vale mesmo nem se dá conta;

considerando que haverá sol,

mesmo depois das tempestades;

que não faço tudo que quero,

e que o que faço nem sempre é a minha vontade;

considerando este coração desconsiderado,

por mim mesma um tanto quanto esculhambado;

considerando que nem sempre me consideram,

como eu mesma já tantas vezes o fiz;

considerando que não sou mestre,

que estou muito mais pra aprendiz;

considerando tanto cansaço,

tanto desleixo, tanta falta de regaço;

considerando todos os considerandos,

dirijo-me a Vossa Excelência,

faço promessa, penitência

pago pedágio, peço licença,

à Senhora aí de fora

que me permita viver.

Nestes termos, pede deferimento

eu mesma, aqui de dentro.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/04/2005
Código do texto: T9894
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