O Bem-Entendido

Há coisa de um momento

Eu não queria mais sentir.

Questão de instantes,

Em que só queria fugir

Deixar pra trás essa terra

Essa cidade, escapulir

Dessa gente que só erra

Que só sabe se distrair...

Há menos de um minuto

Eu queria mais que tudo

Poder tirar o traje de luto

Essa minha roupa tão sóbria

Toda a desculpa que me sobra

Pra não virar um prostituto

Pra não me perder como eles

Abandonar meu olho arguto

E amansar meu instinto feroz.

Há pouco menos de um instante

Abandonei meu modo educado,

Eu deixei de ser um galante,

Que ficava incomodado

Com os modos deselegantes

Dessa gente tão barulhenta

De coração tão arrogante

Com consciência tão curta,

E insegurança gritante.

Mas uma fração de segundo passada,

Numa visão, num lance de vista

Cortaram meu sono à espada

Chamaram meu nome na pista...

E tive que voltar à arena,

Não pra lutar, mas me perguntaram

De que tão cansado eu estava,

Que tipo de ferida me causaram

E de que tormentas me afastava.

Numa troca de olhares cansados

Brilhando o desejo de afastamento

Dessa multidão de humanos errados

E numa busca por mais entendimento

No final luminoso de uma certa tarde

Os dois olharam numa mesma direção

Sem menor escândalo, sem nenhum plano

Quietos, qual a batida de um coração

Entenderam, há todo um mundo de engano..

Mas de bom mesmo, só uma intenção.

Então sorriram, e deram as mãos.