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(“o destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo”)

ou trilha sonora de funeral e sala de espera de maternidade



e eles cantaram:
(“o seu olhar melhora o meu”)
(“me perdoa: a vida é doce”)
(“não existe amor sem medo”)
(“tantos idiotas vivem só, sem ter amor”)
(“porque se chamavam homens,
também se chamavam sonhos:
e sonhos não envelhecem”)
(“[eu] choro por tudo que a gente não teve”)
(“prendia o choro e aguava o bom do amor”)
(“amanhã será um lindo dia,
da mais louca alegria que se possa imaginar [...]
será pleno”)
(“sim, promessas fiz,
fiz projetos, pensei tanta coisa,
e vem o coração e diz
que só em teus braços, amor
eu posso ser feliz”)
(“há muitos planetas habitados
e o vazio da imensidão do céu,
bem e mal e boca e mel
e essa voz que deus me deu,
mas nada é igual
a ela e eu”)
(“em ti eu consigo encontrar
um caminho, um motivo, um lugar
pra eu poder repousar meu amor”)
(“és a mãe de um crime, senhora feliz,
bom e generoso,
e sorris, quando esbofeteia e ofendes
o corpo com os dias”)
(“às vezes parecia que era só improvisar
e o mundo então seria um livro a aberto”)
(“e é assim, chegar e partir
são só dois lados da mesma viagem”)
(“fiquei apenas pensando
que seu rosto parece com as minhas idéias”)
(“traga-me um copo d’água, tenho sede
e esta sede pode me matar,
minha garganta pede um pouco d’água
e os meus olhos pedem teu olhar”)
(“onde vá, vá para ser estrela,
as coisas se transformam,
e isso não é bom nem mal,
e onde quer que eu esteja
o nosso amor tem brilho,
vou ver o teu sinal”)
(“não, nada irá neste mundo
apagar o desenho que temos aqui”)
(“não se afobe, não, que nada é pra já,
o amor não tem pressa,
ele pode esperar em silêncio”)
 (“às vezes te odeio por quase um segundo
depois te amo mais,
teus pelos, teu rosto, teu gosto,
tudo o que não me deixa em paz”)
(“estava mais angustiado
que um goleiro na hora do gol
quando você entrou em mim
como o sol no quintal”)

(...)   {...}   [...]   *...*   !...!  ,...,

e tenho dito
e tenho ouvido
e atentamente ouvido
e muito mais ouvi
e meus olhos viram demais
e o meu demais é ponta de iceberg
é ponta de flecha com veneno
e o deserto do meu real
tem estradas de chão desertas
beijos apaixonados de arredores desertos
tem conferências particulares sobre filmes
tem leitura de alma de violão
e acordes de livro de poesia
e tem a filosofia do sexo
e a psicologia do sexo
e tem sexo atravessando parede
e tem ejaculação de lágrima viva
e choros de gametas e libidos

parece que morro agora
e nasço de novo
por deus, quantas vezes eu já morri?
foram letais balas de festim
mas agora minha morte é morrida e matada
e meu renascimento não é uma gestação qualquer:
tem mais enjôo e mais dor

dias de luta estes meus agora
onde equilibro-me na pororoca
destas águas dividias em minha vida
a dolorosa água do estar que todos esperam
e a suavidade louca da água da dúvida que chama por mim
luta de pescador
e pescador é diferente de caçador:
caçador vai em busca e atira
pescador espera
e esperar dói mais que atirar

não preciso transformar minha vida em poesia
minha vida é meio pseudo-parnasiana
é pseudo-beat
pseudo-vida
minha vida já é poesia
de uma forma ou de outra
já é!
e poesia de uma forma assim...
de um jeito assim...
de uma verdade assim...
de uma felicidade que eu invento
de uma dor que eu invento e de fato a sinto
e como isso me dói, minha gente...

essa minha vida de poesia
não é cheia de borboletas,
jardins,
arco-íris,
pôr de sol,
lua,
escambau...
minha vida de poesia
é uma fábrica de dor, sêmen e sangue ruim
e nela me diluo
nela me desmancho
nela descanso sem qualquer sossego

a musica me desassossega
e a musa também
- se bem que esta também me acalma...

então ficam esses caras cantando...
cantando esses versos
em minhas caixas de som...
então eu penso em todas essas mil verdades
essas pequenas verdades que eles me inflam
e eu as aceito como uma prostituta a um estivador
é que minha porção mulher tem clitóris nos ouvidos

então eu entôo a minha música surda
de desencantos apavorados
em busca do meu eu todo, inteiro
e de você toda, inteira
que é assim que deve ser
e é assim que foi
nos dias em que fizemos o que combinamos
o que prometemos
o que concretizamos
e, por isso, estamos livres agora
para nos amarmos na nossa prisão de amor
o amor que forjamos com história viva
e se vão saber da gente...
sorte deles
todo amor é sorte pra quem ama de verdade

dias tristes estes aqui
dias felizes
dias intensos
noites problemáticas
mas nada que a aurora não conserte
e estas auroras eletrônicas são vitamina
são o correio das
 nossas almas galopantes e ávidas
o nosso manjar de deuses que somos
somos o alvo de nítidas adorações
e temos milagres nas mãos
e temos milagres em nossos legos
e nossos encaixes são chaves místicas
e o tremor de nossas pélvis
são a epilepsia dos transes
são nosso transe consciente e musical
são nosso compasso e nossa rima
nossas línguas estranhas e tão inteligíveis
são o que mais queremos desta vida

minha língua humana – e não a dos deuses que somos –
é apenas uma:
a língua que minha terra me ensinou

meus ouvidos são dois milhões
- eu vou é ouvir música estrangeira pra entender melhor...

ou, quem sabe,
o calor louco do teu corpo
e o teu olhar me ensine
me ensine o que eu precisava saber
e melhore o meu olhar.



















Luciano Fortunato
Enviado por Luciano Fortunato em 03/11/2007
Código do texto: T721480
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Sobre o autor
Luciano Fortunato
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
561 textos (80033 leituras)
20 áudios (432 audições)
15 e-livros (3284 leituras)
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