Chorando

Eu tenho paz e dor em conflito,

Digladiando-se em meu interior,

Buscando velas acesas no escuro,

Chorando no chão esquecido de um hospital...

Eu tenho essa inconstância forte e febril,

Vejo meus olhos no espelho sem me encontrar,

Se você puder me dizer o que se passa nessa mente,

Chorando na laje de um prédio em demolição...

Eu tenho andado por tantos caminhos sem volta,

Esperando enfrentar meus medos sem coragem,

Com palavras desconexas e certezas sem consistência,

Chorando com um dicionário em branco nas mãos...

Se você pudesse me apontar o norte nesse hemisfério,

Ombros que suportassem esse peso que carrego,

Lágrimas doces num mar de água salgada,

Chorando nessa praia de solidão aguda...

Eu tenho segredos que escondo ao raiar do sol,

Com óculos escuros a me protegerem da luz,

Mantendo minhas verdades trancafiadas,

Chorando meus desejos não realizados...

Se você pudesse falar sobre isso nessa sala,

Talvez acreditasse numa solução indolor,

Visse no fim do túnel a liberdade pretendida,

Chorando para voar novamente sem correntes...

Eu tenho essa mente conturbada e tão desconcertante,

Tentando acertar alvos em movimento contínuo,

Minha pontaria não se concentra e erra,

Chorando o desperdício de esforços vãos...

Não há confiança em mentiras abertas,

Se você caminhasse nessa corda bamba,

Sem rede ou segurança pronto a cair dessa altura,

Chorando a manchete indigente de um jornal qualquer...

Eu tenho essa mania de escrever idéias soltas,

Sem metrificação, rimas, sintonia ou sincronia,

Apenas deixando fluir o que vem a alma,

Chorando essa explosão de emoções sem sentido...

Nessa diacronia de um espírito esquizofrênico,

Procuro divisar o que está à frente do pára-brisa molhado,

Espantando os corvos do sótão num dia de chuva torrencial,

Chorando músicas não tocadas pelo som alheio...

Estou perdido nesse campo de verdes pastagens,

Onde meteoros caem atraídos por imãs imaginários,

Esperando retornar ao meu lar de origem,

Chorando essa prolongada estadia terrestre...