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MEU CONJUNTO DE LÁGRIMAS SECAS

Acho que chorar é meio impróprio.
Esbravejar é melhor.
Soltar um "Caramba!"
Chorar? Não.

Esses dias fui tomar banho,
A água que descia era quente,
Morna pra ser mais exato.
Lembrava lágrimas.
Mas era só um banho
Chuveiro em cima.
Eu estava apenas me lavando,
Mesmo com a cabeça baixa a água ainda molha meu rosto.
Chorar? Não.

No jornal outra notícia:
"Morre jovem"
"Morre casal"
"Morre policial"
"Morre bandido"
O jornal é um grande papa-defunto.
"Veja essas crianças com fome"
"Outra enchente". "Outro furacão".
Chorar? Não!

Recebi a notícia de um parente doente.
Quase a beira da morte.
Não conheci minha avó. Todas morreram antes.
A terceira conta atrasou.
"Sua experiência não será útil à nossa empresa. Mas ligaremos assim que possível."
"Fui eu quem fiz, mas fulano levou os créditos!"
Acabou o sal.
Chorar? Não.

Essas vicissitudes acontecem a todos.
De tudo a todos.
Quem nasce sabe que vai morrer.
Mas não me gasto com filosofia pessimista.
Isso as vezes só serve pra alimentar o ego,
De quem não passa pelo que eu passo.
Chorar? Não.

Mais uma história em verso.
Ou duas. Ou três.
Ou nenhuma.
Aquela música... aqueles acordes...
Faz lembrar do sorriso dela.
Traz a memória de infância.
Do último emprego.
Do abraço do amigo.
Deve ser só uma música.
Chorar? Não.

Já falei: chorar NÃO!

Li um texto emocionante.
"Que belos versos"
Realmente ele (a) sabe escrever.
Parece até que aconteceram comigo o que escreveu.

Volto pra casa. Banheiro.
Rosto molhado de novo.
Shampoo ruim esse.
Acabou o condicionador.
Chorar? Não!

Minha sobrinha,
Tão bebê...
Aprendeu a falar meu nome:
"Ando". "Tio Ando".
Meu amigo se formou.
Outro se casou.
Outro também se casou. Pela segunda vez.
Essa marcha nupcial...
"Quando será o meu?"
Ela me olha. Sabe que estou desempregado.
Chorar? He he he. Já disse que não.

Banheiro.
Sabonete já está uma bola de cores misturadas.
"Cadê a toalha?"
"Vou ter que passar o rodo nesse chão podre."

Facebook tem de tudo. Realmente de tudo.
"Caraca. Que homenagem linda para o dia das mães"
"Olha esse vídeo! Que reflexivo!"
"Papai gostava desse ator quando morava comigo"
Chorar? Não. Não e não.

Voltando da igreja.
Culto abençoado.
"Que pregação! Hoje o pastor estava inspirado!"
"Os músicos tocaram demais. Harmoniosamente!"
Sem dinheiro pra pizza a gente pede esfiha.

Ah não. Fulano vai ter que ir pra casa mais cedo.
Cancela as esfihas.

Sem netflix a gente assiste naqueles sites piratas.
"Amo esse filme!"
Chorar? Não!

Antes de dormir, mais um banho.
Fiquei lá. No espelho do banheiro.
"Essas espinhas!"

Fui dormir.

Sonhei que estava num oceano.
Sufocado.
Acordei suado.

Fui tomar banho.
Ao olhar pro chuveiro,
Não sei porque,
Não sei pra quem,
Nem sei por quem.
Respirei fundo.

E fui tomar banho,
Mas dessa vez,
Lembrei de ligar o chuveiro.


(Poesia feita ao som de FRANCISCO de MILTON NASCIMENTO)
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 10/10/2019
Reeditado em 10/10/2019
Código do texto: T6765975
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
75 textos (3298 leituras)
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Leandro Severo II