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Vida e morte

Quem alardeia que o progresso e seu rompante
é sinônimo de vida abundante
não sabe das atuais circunstâncias
advindas das estiagens longas
lá no norte de minas.
Lá, como que milagre, o tal desenvolvimento
implantou, à força, a monocultura; adrede
a ela, os dissabores da seca verde
e um prolongado e árduo sofrimento.

Quem combate minhas palavras
precisava conhecer a nossa infância
vivida nos sítios às escuras
traçados por estradas tropeiras
casa de sede lumiada à lamparina,
rios que se atravessavam à nadadas
isso quando a época não era de invernadas;

precisava sentir o peso das peneiras
abarrotadas de peixes pescados sob os espelhos
das águas cristalinas em abundância;
precisava mesmo era ver a esperança
que saltava dos olhos dos caboclos
...mas o progresso em sua afoiteza
invadiu as chapadas e os campos gerais
engoliu as nascentes, as correntezas
iludiu as pessoas com sua riqueza
e se eclodiu numa imensidão verde de tristeza
e provocou o êxodo rural, aos poucos.

Quem afirma que a morte é o fim da vida
nunca prestou atenção nas vicissitudes
que ladina ou abruptamente e amiúde
se debruçam na janela de nossos dias;
nunca percebeu quão rara é a amizade
quando se está em combate co'a enfermidade;
nunca perdeu um amor que se acreditava eterno
nem provou do azedume servido no inferno
dessa perda irretratável;
nunca exercitou olhar para baixo atentamente
e desesperadamente viu que a vida ou a prévia
da morte surrupiou-lhe o tapete, o chão e corrente
que lhe prendia no pêndulo da gravidade.

Quem espalha que a morte é imprevisível
jamais admitiu vencido pelas noites às claras
insone e em monólogo pro abajur da sala;
jamais se viu de repente quão a vida é injusta
e quanto tolo, quase risível,
é o viver desprovido de simples perspectivas;
quem sustenta que a morte é sorrateira
sequer se dá ao trabalho de se olhar no espelho
e observar a queda prenunciada dos cabelos
e o silêncio mortal das células sem vida;
sequer tem tempo para perceber
que é na suposta falta de tempo
que se morre a todo momento
desde que se vive distante do bem querer,
desde que vencido o tempo de nascer.
Cid Rodrigues Rubelita
Enviado por Cid Rodrigues Rubelita em 02/03/2013
Código do texto: T4168576
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Cid Rodrigues Rubelita
Curitiba - Paraná - Brasil
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