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Torpor

Quisera eu um dia afirmar com veracidade o que desejava sentir, numa vaga ilusão de felicidade próxima, num breve momento de brilho infantil, numa esperança teimosa de que confiar no depois é um sentido mais válido, que a dor presente não se alastra, que o silêncio não consome a alma, que a quem grita a voz é ouvida por si mesmo, que a quem chora o sal da lágrima não resseca e deixa seu gosto por onde passou.

Um caminhar sem-fim, no engodo do caminho, um deserto sem vida aparente, cuja peçonha ataca o pé em momentos distraídos, numa breve confiança de que a areia não deixará afundar o corpo. Não sobra sequer a alma, dissolve com o suor, escorre para a areia, é engolida pelo próprio deserto faminto, sedento, vazio, desesperado.

Passos cada vez mais difíceis, olhos confusos, não tem certeza se enxerga um recanto ou se é mais uma ilusão deste deserto áspero que o acolhe, em momentos sente que o aconchega, em outros o açoita com tal força que acha não poder sobreviver.

E por que caminha neste deserto? Porque nasceu nele, cresceu sem ver outro lugar. Ouviu histórias que existe algo melhor, mas o próprio deserto se encarrega de arredá-lo para si. Algumas vezes nascem prímulas tão rosadas que não há casa melhor. Pouco tempo depois vem o sol que fustiga suas costas até que implora em silêncio que pare, pois uma única e breve palavra poderia ser derradeira, a dúvida ordena não se pronunciar. O esforço deve ser concentrado no caminhar contínuo, rumo a algo, rumo a um talvez, fugindo da morte que ronda com tamanha presença que parece ser a companhia mais sensata. E então a noite gelada chega, permitindo descansar.

Quisera eu afirmar com sinceridade que um sentimento nobre me coordena, minha força provêm da minha certeza, meu pesar fosse temporário e minha dedicação fosse absoluta. Quisera eu ainda com mais fulgor acreditar que minhas dores importam mais, meu orgulho não é ferido, minha história não é contada por outro, minhas chagas saram sem deixar máculas.

Calar quando a alma berra é ato de orgulho? Não posso ser sábia para dizê-lo, sequer sou sábia para reger minha orquestra cotidiana na harmonia necessária e ter o prazer próprio de ouvir. Entrego a batuta a quem se diz melhor que eu e a surpresa que tenho é me sentir muito mais responsável pelos acordes desafinados do que se tivesse sido eu a ter erguido a mão.

Viro-me ao palco e vejo regalos de falsa autoria. Não sou amante desta música. Mas me deixo entorpecer por ela e quando acordo, já me afundei até o pescoço na areia movediça.
Cris Vilanova
Enviado por Cris Vilanova em 02/07/2008
Código do texto: T1060976

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Sobre a autora
Cris Vilanova
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 38 anos
57 textos (4303 leituras)
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Cris Vilanova