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A SOMBRA

Não é dia, não é noite. É exatamente o momento em que o tempo nos perde entre um e outro e tanto se pode dizer boa tarde ou boa noite. Perco-me no espaço, já que o tempo, nestas horas, já me perde desde sempre. O céu tem o tom dos olhos tristes, amainando os amarelos esbranquiçados. Pode-se dizer o cinza, também,  por que não? Cinzas ou brancos amarelados deixam-se ir para o outro lado e chega o que cala, o que escurece, o que não reflete, ao menos a mim. É o tempo de rever o feito e rever o que ficou por fazer, reimaginar como seria se fosse o contrário e talvez, como sempre, achar que teria sido melhor o contrário mesmo porque ainda faz falta o que não se fez por falta de tempo. Torna-se um tão mais necessário e urgente e desesperador e o tempo mingua as possibilidades de ir e fazer no agora que também já passou sendo o agora o antes de agora e o futuro de agora um pouco antes. E parece que ainda há muito a ser feito e nada a ser feito agora (o agora como acabei de dizer). É assim que me vem esta hora. A hora da calada onde o tempo não volta, mas vai e célere mais do que quando acordei e muito mais do que quando for dormir, porque quando é chegada a hora de desligar o pensamento parece que tudo corre com tal velocidade que um piscar, um mísero piscar, nos obriga a levantar um novo dia. Não durmo há séculos, isso todos sabem. Meus olhos denunciam e julgam e culpam a mim. Mas não é sobre isso que pretendo falar.
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as cores que embaralham os pensamentos no exato momento em que o dia já não é e a noite ainda não é. Essas cores que não se encontram em lugar algum a não ser onde estão e lá também mudam de gradação de forma fantasmagórica que uma parece ser totalmente diferente do que era há milésimos ou mesmo quando os olhos desviam para ver o que se passa na esquina e voltam  e as cores já são todas outras, nenhuma como antes ou ontem e tenho certeza como amanhã que também será diferente das cores do depois de amanhã e assim numa sucessão de cores e entretons e tons e tonalidades cujos nomes são desconhecidos e nos remetem às telas que ninguém pintou. É ai que as sombras aparecem ou a falta de tons de outros tons, matizes, cores, tonalidades e me vem a imagem de uma grande borracha negra (de capa e máscara) e se sobrepõe a tudo, apaga manchando tudo num avesso do aparecer. E cada coisa já não é por inteiro o que se dizia ser.
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A sombra do muro que nasce no eixo chão-muro, sobe enegrecida tomando posse numa guerra silenciosa onde o que deixa de ser já é e vai e cresce e segue tomando lentamente o que não tem fuga, o que não tem saída a não ser entregar-se e se ir sugado, deixando de ser o que fora ainda há pouco, deixando-se enegrecer por dentes ondulados do que há a frente e que o toma como se fora sempre seu sem recusa, sem receio, numa entrega de quem não tem outra alternativa que não seja entregar-se ao inimigo esperando sem aflição a sua pena.
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a árvore frente ao muro se desdobra se duplica em tronco, como se nascesse pela rés da calçada e lentamente engole calçada e engole muro e se forma ali onde nada havia antes e já são árvore e árvore frente à frente a tomar conta do muro que, silencioso, aceita sua sina de peito aberto, deixando-se transmutar, recebendo a árvore, fagocitado ao avesso da árvore e sempre e cada vez menos muro de si.
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Com a árvore acontece o mesmo, porém é a sombra do poste que lhe toma e lhe corta o tronco e se parece agora um palhaço em meia fantasia (só mangas e cabelos) não há corpo, enegreceu-se na forma do poste e seus fios estrangulam o palhaço-árvore e há agora meia árvore em cada lado e meia copa (cabeça) sem árvore. O verde, antes vivo, murcha negro e mesmo em cada folha se vislumbra a tomada de posse de suas veias, fotossíntese enegrecida que lhe rouba a cor e não sei se a essência também,  pois já não parece ser o que era a não ser pela nomenclatura pela qual a conheço.
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O muro é árvore e é poste.
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e assim como tudo deixando de ser como é em frações de segundos-minutos-horas que transformam o que era em algo que é totalmente diferente a não ser por sua essência que não sei se muda também para transmutar no que era sempre  e sempre foi até que o sol reapareça engolindo a sombra, também, numa batalha silenciosa e sem conflito, ao menos assim acredito.
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E também o homem parado na esquina, escorado ao muro, cuja aparência me é indiferente até que sua cara se transforme no mistério de sombras e já penso duas vezes antes de me aproximar. Talvez ainda seja o mesmo de antes, mas agora enegrecido por tudo à sua volta, e tem outras faces que o imaginário cria quando se depara com o obscuro, o não-conhecido, o desconhecido. E lhe vejo ser engolido pela sombra que o traga pelos pés e percorre suas pernas lentamente como se mastigasse um pedaço de carne tendo espasmos nevrálgicos, aos poucos, por partes e o consome lentamente transformando-o em massa digestiva da escuridão e continua vagarosamente, sem pressa, a saborear o que ainda lhe resta de si mesmo. E já penso que pode ser quem não era ou ainda um outro dentro daquele que ali estava agora a pouco antes ainda e tanto que sendo ele um outro ele dele próprio. Seu lado obscuro que talvez guarde para estas horas onde se entrega sem batalha, onde se mostra sem mistério, sendo mistério para mim que o observo e me surpreendo com o que meus olhos mostram ou tentam buscar mostrar entre as sombras que são ele ali, parado na esquina.
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O homem é o muro é a árvore é o poste.
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Assim também eu me vejo sombra de mim, mostrando o que me oculta ou oculta quem sou em mim. E também, como tudo, me deixo ir, devorado pela escuridão que sinto tomar posse sem dor, sem receio a não ser o de deixar de ser quem em mim sou quando não há sombra. E me vejo outro eu em mim, aparecendo em meio ao desaparecimento de mim mesmo. E parece, por alguns segundos, que posso ser além de mim, aquilo que não sou, ainda que seja isto que vejam os olhos que me olham por todos os lados. Ainda que eu seja exatamente isto que aparece quando desapareço entre as sombras do que me oculta, rasgando lentamente o que levo em mim como se me fosse assim e sempre e como nessas horas apareço, sem luz, mas claro e cintilante em meu avesso ou o que busco deixar nas sombras de mim mesmo como se sombra fosse tudo o que não é visivelmente aos olhos  alheios e agora, nesta hora reluz na escuridão o todo eu sombra que guardo e grita .
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é nesta hora que me atormenta a escuridão do que sou às claras, como se mostrar meu obscuro, escurecido, assombrado fosse de tal forma necessário, como um alívio espasmódico, como um receio encefálico de acreditar não ser o que nessas horas sou dentro de mim escuro como fora, agora.

É nesta hora que deixo de ser lua. A lua que se desdobra e se contorce e se esconde de si mesma e jamais há quem possa lhe enxergar, mesmo na sombra, o seu lado negro.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 18/06/2009
Código do texto: T1655194

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 50 anos
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Paula Cury