CHAMPANHE ESTRAGADO COMO EU

Hoje abri uma garrafa de champanhe bem preservada

quando me dei conta que não tenho nada aqui

para comemorar. A minha vida vivo-a por

arrasto e com muito esforço alcanço os

meus fins, que principiam sempre por algum

lado, lado esse onde eu não me encontro

bastas vezes, sou o próprio reverso de mim

mesmo e não vale a pena as minhas justificativas

para merecer o ar que respiro….

por pressuposto sou um pária da sociedade

já que meus poemas morrem logo no seu inicio

e por mais que eu queira não levam pão à boca

de ninguém, quer chore de inanição, quer de outros

maltratos que uma criança não devia estar exposta…

grito sim eu grito, não me ouvem gritar a dor que

me vai no peito? O que é feito de vocês poetas e

escritores que se tornaram omissos pela palavra?

Crianças ranhosas esbugalham os olhos ao ver-me

não pronunciam palavra que o choro morreu-lhes

na garganta não acicatada… mas eu ínsito à revolta

vós que sois poetas têm obrigações, não vale a pena

escarrar na parede e ver a miséria sem fazer nada.

Contra o focinho da palavra minhas veias se expõem

minha garganta incha com a dor e o verso que ficou

atravessado na dita cuja que apresenta tons vermelhos

pelo esforço de gritar ao mundo que isto é um fratricídio

com o qual temos de lidar pés firmes na terra, somos

todos culpados e até o champanhe estava estragado.

Sou um vagabundo percorrendo as areias do deserto

minha voz não tem precursor e isto vai de mal a pior.

Masturbadores passivos sóis vós, que escrevem sobre o amor

sem o doar a ninguém, preferível ser transgressor e

acicatar tudo isto, desde o coto até ao membro decepado.

Dou-me conta que as pessoas não querem saber da fome

dessas crianças, limpando o ranho ao pulso, para parecerem

mais decentes, escreva-se um poema sobre o amor e é

garantia de que será lido, escreva-se uma prosa social e ninguém

quer saber do que lá vem escrito, nem se dão ao trabalho de abrir

o trabalho do poeta e escritor. Conto pelos dedos as pessoas

que abrem um poema social para o lerem com olhos de ver

e pronunciar-se acerca de… enquanto escrevo esta prosa

dezenas de crianças morreram sob nutridas e por falta de

medicamentos, que no primeiro mundo há aos montes.

Hoje abri uma garrafa de champanhe e não tenho nada para

comemorar, apenas chorar e me culpabilizar ante os factos.

Jorge Humberto

10/07/10

Jorge Humberto
Enviado por Jorge Humberto em 11/07/2010
Código do texto: T2371016
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