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Maria Bonita

Inventei um idílio, transcorrido pouco tempo, fui vitimizada por ele. Barbaramente, ainda me culparam. Era uma mulher de curvas, ora! Acusaram-me de avilanar o poema. De idólatra a iconoclasta, seria pungida de qualquer maneira. Fugi, desesperadamente de aldeões e transeuntes, que acharam natural violar-me depois do idílio. Atravessei a caatinga descalça. Não me deram alento. E assim sem sombra ou lenitivo adormeci exaurida.
Meu coração figulino sentiu inevitável remorso de não ter maus fígados. Foi então que veio atrevido um poema de amor eterno.
Não cri que me desejasse naquele estado maltrapilho, aviltou-me sua eloqüência em tantos mimos que me fez. Não tive dúvidas: passei-o no canindé. Vi escorrer-lhe o sangue dos enviesados olhos, as mãos atônitas, pasmo de ser morto assim de chofre.
Percorri os olhos pela estrada, onde nada mais acontecia. No imo peito, inumei-o. Andei chorosa por um tempo, raiva mais que culpa. Tomei um banho num rio de águas amargas, misturamos nosso fel. Saí limpa, a pele clara, os olhos claros, o sorriso exíguo. Não era mais de palavras, nem de poemas. Era uma mulher de seios, tão capaz do assassínio do poema como de comer feijão com arroz.
claudia lidroneta
Enviado por claudia lidroneta em 11/08/2012
Código do texto: T3825560
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
claudia lidroneta
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 52 anos
54 textos (1438 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 29/09/20 11:58)
claudia lidroneta