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DESPEÇO-ME DE TI. MAIS NADA.

          E então é assim que acontece. As pessoas dão adeus e pensam que é um pretérito perfeito. Fui. Ledo engano, que o adeus é um futuro contínuo. Um despedir-se a sangue e suor,lento e homeopático. A gente não se despede das coisas e das pessoas como quem dá uma facada na jugular, embora sangre de dentro para fora igualmente. Assim eu. 
          
          Venho me despedindo de tudo o que já foi e que não tem mais como vir a ser - que tudo, Lulu, é como uma onda no mar (nunca será o que foi) - lentamente, com sinais claros e outros nem tanto. Ninguém volta ao mesmo ponto do rio. A mesma margem no  mesmo ponto jamais terá as mesmas águas, porque as de antes já passaram e as que agora passam não voltarão jamais.

          Despeço-me ritualmente, embora, no mais das vezes, apenas eu entenda meus rituais. Despeço-me agradecida. Agradeço as feridas abertas, aquelas fechadas que mantém algumas cicatrizes e aquelas já tão fechadas que não deixaram sinais mas cujas dores me fizeram melhor. 

          Despeço-me de ti, que ainda sangras sem saber o muito que ainda terás que sangrar para entender o que houve contigo mesmo que abriu valas nas tuas certezas de antes. Ainda há muita estrada na tua frente e eu já passei por essas estradas e não se volta, tu não o sabes ainda. Só se vai para frente, ainda que o coração dissesse "espera um pouco que teu amigo chega lá". Não é possível. A vida cobra que passes adiante sem olhar para trás. Assim, meio bíblica, te digo que, como em Sodoma e Gomorra, se olhas pra trás, viras estátua de sal. Assim,  despeço-me de ti, do tu que um dia fostes e que hoje não mais existe, embora não te dês conta disso ainda. Ainda acreditas que aquele que me encantou está contigo. Não mais. Vestistes um outro modelo que não vai com meu estilo.

          Terás que seguir com tuas incertezas e dores e eu não estarei por perto, ainda que esteja e ainda que eu queira. Estarei num ponto lá adiante e tu só chegarás quando aprenderes a encarar o espelho sem quebrá-lo de raiva (como eu fiz tantas vezes), mas grato por aquilo que ele te mostra. O espelho é o caminho. Com algumas pedras fora de hora, eu sei, mas que sempre servirão para construir-se mais rochedo, mais fortaleza.

          Só quando fizeres as pazes com teu espelho e aprenderes as despedidas, só aí, meu velho amigo, entenderás o que faço e como faço. Só aí entenderás de onde vem minha força para par(t)ir sem dor. Só aí entenderás como renasço a cada morte, a cada segundo. 

          Despeço-me de tudo que foi sem nunca ter sido, de sonhos multicoloridos mas sem projeto de execução, de conversas não havidas que seriam a solução mas que não quisestes ou, quem sabe, apenas não soubesses como fazê-lo. Só aí entenderá que partir sem olhar pra trás, despedir-se sem ligar para a dor, não guardar histórias na memória e tampouco um baú de recordações cheio de fotos de momentos que não mais não é rancor  e que, seguir em frente escolhendo a si próprio não é coragem ou covardia (que os opostos podem andar juntos): é humildade de aprender.

          Ainda partirei muitas vezes, porque há muito que aprender. Por ora, só há o "nunca mais" porque aquela que sou ou que fui e aquele que nem sabes  se fostes ou mesmo se és continua a olhar o espelho a procurar-se, ainda sem entender muita coisa. Mas minha presença em algum momento terá te indicado o começo da estrada. 

Despeço-me de ti. Mais nada.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/04/2007
Reeditado em 04/04/2007
Código do texto: T437170

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
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Débora Denadai