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Um brinde...!

Uma única estrela nasce e brilha no céu azul marinho de outono. Tarde gélida e pálida que anuncia uma noite solitária. Noite de taça de vinho e quem sabe uma coisinha qualquer para comer e que me faça poder beber mais e brindar á uma existência caótica e errante. Brindo a todos aqueles que são felizes e me deixaram aqui; tentando tragar mais um gole seco e amargo da vida sinceramente vazia, que assola cada um dos meus dias. Brindo aos bons e aos maus, brindo aos loiros e morenos. Brindo aos grandes banqueiros que sentam diariamente em suas cadeiras executivas, de couros caríssimos e legítimos e chiquérrimos. Brindo aos pobres coitados, que passam noites frias tentando aquecer o pouco do que lhes resta de esperança, ao redor de fogueiras improvisadas. Brindo as famílias de comercial de margarina, que acordam cantando...Oh happy day! E mais um gole e mais uma taça se vai. Sozinho sigo brindando.

Me lembro de cenas felizes do meu passado...sim sim...não sou um fracassado completo. Tive meus dias de sol na praia, rodeado de crianças felizes e sucos e picolés. Tive meus dias de pai e marido.Tive dias de cão e de paz. Dias que ficaram para traz, em um passado de fotos amareladas, amassadas e rasuradas. Fotos manchadas pelos meus devaneios e loucuras. Fotos borradas que perderam o brilho e a cor. Fotos de um tempo em que se brindava com os amigos, por dias alegres, por dias melhores. Fotos de gente sorrindo, de alegria estampada...fotos.

Hoje me rendo a brindes solitários e amargos. Brindes que me levam as lágrimas, mas trazem de volta um pouco das memórias de uma vida cheia. Uma vida de finais e recomeços. Uma vida de caminhos tortuosos com destinos incertos. Brindo aos meus anos mal vividos e aos que me renderam frutos. Brindo aos que se foram e não podem mais brindar comigo. Brindo aos que poderiam, mas não querem mais dividir o fel que eu trago em mim. Brindo aos que me acolheram e aos que me humilharam. Esse é, sem dúvida um brinde especial...sim...o brinde dos brindes. E digo que sem os que me acolheram, hoje não brindaria a mais nada e sem os que me humilharam, hoje, não teria motivo para tantos brindes.
Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 25/05/2007
Código do texto: T501229

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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Mari Mérola