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Sonhador

Sonhador era um arquiteto de sonhos. Planejava grandes sonhos, cuidava de grandes planos, era movido por grandes sonhos. Mas não sabia viver. E como era triste ver o pobre Sonhador caminhando pelos cantos, a divagar em seus sonhos.

Um dia, tal qual houve com Garret, Sonhador passeava distraído em sonhos quando inesperadamente seus olhos são fulminados pelo olhar mais lindo, algo que ele nunca poderia ter sonhado. Ficara encantado, perplexo. Como podia existir tal beleza entre os humanos na Terra? Sonhador de imediato grava na memória aqueles olhos belíssimos, mas não só isso, guarda também o sorriso, os gestos, enfim tudo da formosa criatura.

Logo, Sonhador descobre o máximo possível sobre a formosa dama. Seu nome, seus gostos, suas manias. Chamava-se Desejada. Nesse meio tempo começou a aproximar-se de seu meio social, de sua vida. Custou um bocado, mas finalmente Sonhador consegue derramar meia dúzia de palavras a Desejada. E deste primeiro contato surgiram outros, e, puxa vida (!) como era bom passar horas conversando com sua dama, momentos de riso, de alegria, como de tal modo fluía espontaneamente dezenas de assuntos, de temas. E os sonhos de Sonhador tomaram um novo rumo. Cada dia mais encantado com a sua Desejada, Sonhador pensava em como lhe falar sobre seus sentimentos, sobre o que lhe havia crescido no peito de tal modo que não podia mais suportar. Pobre Sonhador. Nascera para sonhar, não para viver seus sonhos. Nunca em sua vida precisara tanto viver a realidade para poder garantir seu amor como agora e, na hora de maior necessidade, fizera uma terrível descoberta:

Não tinha a mínima noção de como transformar seus sonhos em ações concretas.

Começou a jazer depois dessa descoberta. Não dormia mais, porém seus sonhos agora duravam toda a extensão do dia. Sentia um nó na garganta que lhe impedia de falar quando estava com Desejada agora. Não conseguia dizer uma simples frase, profunda que fosse, e perdia suas chances com completas banalidades, coisas do tipo que não interessa a ninguém – quem quer saber se os cérebros de uma criança e de um gorila funcionam do mesmo modo? Sonhador precisava fazer alguma coisa rápido, antes que Desejada partisse novamente.
Pensou, e pensou, e pensou, mas não encontrando saída nas idéias dormiu apoiado em seu caderno de notas. Ao seu melhor modo conseguiu uma suposta solução. Despertou no meio da noite e buscou ajuda de um amigo: Tentativa. Juntos, tiveram idéias infalíveis, se tudo desse certo, mas precisavam ainda de outras pessoas para a realização dos planos. Foi terrível. A ajuda que obtiveram de Omissão, Inverdade, Pretexto e tantos outros só fizeram com que Desejada se afastasse dele.

Um velho amigo, Desespero, bateu então em sua porta. Incapaz de impedi-lo de entrar, este tomou posse da vida de Sonhador, que agora passava as noites aos pesadelos. Sonhador tentava não desistir e lutava contra o Desespero com todas as forças para manter a sanidade. Desespero enfim ficou apenas com um velho e apertado cômodo de seu coração e Sonhador voltara a ver Desejada, muito distante agora, cercada por barreiras inacessíveis.

Desejada ficava cada dia mais bela, mais encantadora. Como um herói épico, Sonhador precisava vencer as muralhas que cercavam o castelo de sua amada e conquistá-la, levando-a pelos braços para um sugar seguro. Sonhador... Nunca conseguira nem corresponder a um afeto declarado ocorrido anos antes, quanto mais conquistar um coração já machucado por ele mesmo. O máximo que conseguiria se tentasse era aumentar a barreira num nível eterno. E foi exatamente o que fez. Tentativa quase lhe dava um soco quando soube. – Mas o que eu posso fazer? – argumentava Sonhador. E tinha até uma certa razão. Preso em sua masmorra, nunca tivera contato real com as emoções e reações das pessoas. Vivera sua vida numa ilha metálica e sem emoção. Porém seu argumento falhava. Machucara talvez irremediavelmente um coração. Quando tentara consertar as coisas, feriu-a onde sentia mais, feriu-a na Verdade.

Sonhador está perdendo as forças. Parece querer desistir de tudo o que sonhou e tentar sonhar de novo aqueles sonhos impossíveis que um dia teve. Sua Desejada continuará ali, onipotente sobre ele, acima das torres do castelo de barreiras, sempre bela, sempre Desejada, sempre... inalcançável. Se um dia Desejada olhar para baixo e ver sua plebe, verá um que tenta se destacar, sem muita noção do que faz, afinal são sonhos, mas disposto a abrir seu coração num lamento de perdão e de culpa em acordes menores.


                                                                     Andarilho
Andarilho Solitário
Enviado por Andarilho Solitário em 24/08/2007
Reeditado em 10/12/2008
Código do texto: T622082

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Sobre o autor
Andarilho Solitário
Viamão - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
15 textos (690 leituras)
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