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O tempo não deixa rastros...

Nunca deixa
Nós que sempre, sonhando acordados, não esquecemos nunca, mesmo de um frasco dele, que esqueceu de esquecer, que deixou pelo caminho, que deixou morrer,
As marcas dos pés no chão, engolidos pela areia, pelo próprio tempo, marcas de pés sozinhos,
O bafo de umidade .. no vidro da janela,
Aquela casinha no meio do mato, bem velha,
O giz que um dia desenhou uma aquarela,
A infância que deixou de ser donzela,
O tempo nunca deixa rastros,
Tudo aquilo que deixamos, não é nosso, a posse sempre foi uma ilusão,
O caro, sempre foi mais barato,
Brincos, cordões de ouro ou latão, livros, pertences que nunca nos pertenceram,
Territórios da mente, que um dia pelo rio desceram,
Que um dia voltarão a ser inanimados
Almas que nunca tiveram, almas nossas que nunca aprenderam
Que o tempo não deixa rastros
Nós que os perseguimos, nó de menino ou barbante de versos,
Nós que despertos,
Criamos um mundo de ilusões, e o abraçamos,
Não aguentamos ver mais do que podemos, sentir mais do que queremos, receber mais do que pedimos,
Os rastros, gravamos na mente,
Mentimos a nós mesmos, que é independente,
Mas o acúmulo de areia do tempo, que seguramos nas mãos, é tudo, diz tudo sobre a mente, que sabe mais de si mesma, n'agilidade ou se arrastando como lesma, mas sabe,
Na segurança de uma incerteza,
E por saber demais, sem saber
Por saber demais sentindo, sem entender
Inevitável que entrará em convulsão,
Que buscará um refúgio na ordem, em uma primeira comunhão,
Que levará a própria vela, como sacrifício... queimando no altar cristão, ou islâmico, ou budista, ou qualquer outro artifício ou  compensação,
Que muitas vezes não compensa, compensa na repetição de mantras simples, de palavras de ordem, de aço e de ódio, de um amor estranhamente vacilante, errante, que não sabe amar, que confunde o domínio com o calor do coração, que confunde a compreensão com o calar,
Calado vosso coração, escutando o tempo, sempre na surdina, descendo sempre, sem descer, deixando sempre nenhuma pista,
Queremos ser pistas marcadas no chão
Com caule e raízes prendidas
Mas somos rastros do tempo
Que são sempre apagados
E sempre e sempre esperamos
Que ao menos pra nós mesmos
Os rastros nunca se apaguem
Que continuemos a esmo, a ser acumulados
Ou que se danem, e que daninhos, nos caminhos em que, toda rosa tem um espinho, nos sufoquemos sozinhos, no vinho do veneno, quando queimamos a própria alma, quando perdemos o doce sabor, que apenas a vida pode oferecer
Que em seu turbilhão, acalma
Que fortalece ao invés de perecer
Thiago Fávero
Enviado por Thiago Fávero em 09/01/2018
Reeditado em 24/02/2019
Código do texto: T6221101
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Thiago Fávero
Bicas - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
699 textos (9154 leituras)
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Thiago Fávero