CAÇA-PALAVRAS.

Tão docemente eu as tinha, prezadas palavras. De modo tão fácil, chegavam-me vocês... Ora, carinhosas... Ora, caridosas, amorosas, caprichosas. Vinham-me feito confetes coloridos enfeitando minhas páginas. E fazíamos tão bela parceria. Mesmo quando, vez ou outra, não partilhávamos das mesmas ideias, conseguíamos um bom entendimento. Pontuávamos com precisão, coordenávamos as orações, e agora, as encontro tão insubordinadas. Não atendem a meus chamados, seguem a tratar-me com tanta indiferença. Por que castigam-me tão severamente, deixando minhas páginas em branco? Por que não abandonam meus pensamentos confusos e voltam para que possamos juntas, novamente, dar sequência aos parágrafos? Posso, numa distração ou outra do corretor ortográfico, ter cometido alguns erros...No entanto, creiam-me, jamais os cometeria com intenção de magoar A, B ou C. Erros acontecem e podem ser perdoados.

Certa vez, disseram-me que eu escrevia com o coração, com a alma. E acho que é por aí, mesmo. Cá entre nós, palavras amadas, sabemos que o coração não usa lá, de muita racionalidade, não é mesmo? Sobrepõe-se à razão e acha que tudo pode. Tantas vezes, procurei por vocês no fundo da alma...e usei de tanta transparência para tentar de forma cristalina, descrever sentimentos, pensamentos e emoções. No entanto, hoje, as encontro tão dispersas, distantes, escondidas,indefinidas... Vivo a procurá-las daqui e dali, nesse estúpido jogo de caça-palavras. Permitam-me, por favor, outra vez, encontrá-las, para que possamos continuar nessa ligação simbiótica, onde mutuamente, nos favorecemos, nos entendemos e procuramos aliviar os dissabores, os sofrimentos, os desencontros e as dores que fazem crescer, mas também, fazem chorar.

Elenice Bastos.

elenice bastos
Enviado por elenice bastos em 07/02/2018
Reeditado em 07/02/2018
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