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Não vamos falar de amor

Processo de criação é uma coisa complicada. Eu geralmente não sei bem como começar. Processo de criação de um texto é ainda mais complicado por envolver preocupações desde forma e técnica até pessoas e sentimentos.
Final de Domingo, inicio de segunda. Não sei bem se é o Domingo o dia responsável por fazer você parar para pensar, parar para refletir e de certa forma meditar sobre as decisões que tem tomado. No momento a única preocupação que eu tenho não é a forma com que meu texto vai ser interpretado, se está bem redigido e todas as outras preocupações que alguém que escreve deve ter. Não sou escritor, nem poeta, nem formador de opinião. E isso é ótimo, de certa forma egoísta, mas me deixa margem pra não ter que me preocupar com que os outros pensam. Sou uma pessoa comum que precisa escrever como forma de anestesiar os socos que sinto no estômago, socos intensos e contínuos que transcende o físico e incomoda a alma. Alguns envolvidos com a medicina vão dizer que é angustia, que é ansiedade. E pode ser que seja, talvez seja.
Quando pego para escrever, ou melhor, para me tratar é preciso relaxar. Não que eu entenda muito de medicina ayuvérdica, mas é preciso deixar a energia fluir. Entendo que este seja meu processo de criação abrir uma cerveja, fumar um tabaco, colocar uma música que me concentre ao mesmo tempo que me inspire e me liberte. Sim, além dos socos contínuos tenho a sensação de aperto, como se me apertassem o pâncreas. Enrolo o cabelo, acendo um tabaco, um cigarro, um charuto, um paiero ou um beck. Faz mal eu sei, mas é a forma pouco saudável que encontro pra respirar e ter a certeza que tenho controle, que tenho algo nas mãos e quando eu acendo me acalma, me faz pensar, me relaxa. É um vício, é uma conta burra. Já ouvi dizer que estou trocando vida por prazer momentâneo e sinto que essa é minha especialidade.
Agradeço, agradeço, pois, se não fosse esse incomodo umbilical, visceral eu não conseguiria controlar essas emoções de raiva, medo, angústia e ansiedade que ora me motivam, ora me fazem querer abrir as portas e correr sem rumo, sem fundamento, sem objetivo em busca de prazer momentâneo escondidos em vícios. E é preciso virtudes pra isso. Viver minuto por minuto, sem viver mais ou menos, matar ou morrer, deixar o que foi... Deixar o que foi, era o que eu precisava escrever. Eu precisava escrever para eu ler. E é uma merda. Escrever bêbado nunca foi uma boa opção. Mas é preciso. A bebida funciona pra mim como doses de vontade. Vontade de falar o que penso, vontade de expressar o que sinto, é momentâneo. Na maioria das vezes me arrependo depois. Enfim, foda-se. Foi preciso.

Segunda de madrugada não é um dia comum para repensar decisões. Mas a angustia não me deixa dormir. Tem um lado que me diz que eu fiz merda, que eu fui impulsivo demais, que eu não soube valorizar o que tinha nas mãos, não sei se eu tinha nas mãos e deixei escapar pelos dedos. Não sei se é ter, acho que não se trata disso. Me foi entregue em um momento que eu não estava bem, que eu precisava de força. Acho que eu enxerguei distorcido, acho que não acreditei, estava tudo tão certo que eu quis jogar pra cima para correr riscos. É difícil analisar isso. Às vezes, acontecem coisas certas em momentos errados. Acho que isso define tudo. Com tudo isso, tenho só tentado tirar a responsabilidade de mim e atribuir ao tempo que no momento é um bom suspeito, um bom culpado, um bom réu. Acho que não defini nada.

Okay, vamos lá de novo. Não era só uma dor visceral, meu pâncreas não estava amarrado, eu estava amarrado. Eu estava fudido, me sentia péssimo, e aí você usa o resto de autoestima, de amor próprio que não te foi chupado, explorado. E, em um dia qualquer, que tranquilamente poderia ser uma segunda em que você se entope de trabalho pra não pensar em mais nada você resolve olhar pro lado e ver a sorte te procurando. Você está sóbrio e precisa tomar uma decisão, manifestar vontade. Então você tenta uma, amassa e joga fora, na segunda você chuta de olhos fechados e deixa a cena sem querer saber o resultado. O resultado vem, parabéns você ganhou! Ponto pra você! Você acaba de ganhar um gole no deserto que te deixaram e você vai lá e lanças as fichas “all win”, cospe promessas em um futuro incerto.

Vamos lá. Você perdeu tudo, você gosta de riscos. Você tropeçou e encontrou o que te reconstruiu, o que te cuidou, o que acreditou em você. E aí? Bem, e aí começam as referências. Coloca a culpa no Woddy Allen, na contracultura, no Buk. Nessa necessidade que beira a imbecilidade de viver dentro de um filme, de fazer parte de uma história. Umas folhadas de Stanislavski, a aplicação má interpretada de Melaine Klein, Freud e Jung. E a cereja do bolo ou o ápice da idiotice ler as biografias de rock stars e achar que suas portas das percepções estavam abertas, poderiam estar... várias portas deveriam estar abertas e você abriu, estava escuro, você não acendeu a luz, deve se achar muito autossuficiente.
Arrogante como sempre desceu as escadas no escuro e lá Zaratustra acendeu a luz, riu da sua cara tentando se confortar em niilismo deitado em lençóis hedônicos ouvindo Jim cantando a sua sorte “I´ll never look into your eyes again”. Você assimila, mas não entende. De forma desesperada acende cigarros, atrás de cigarros e bebe, bebe muito. Bourbons, Old fashioneds, Martinis, Negronis e qualquer merda que te deixe sem controle nenhum para aplicar suas técnicas frustradas de negociação. Está aí seu erro cara, amor não se negocia. Não vamos falar de amor, agora. Não é o momento. Grita ao celular que ecoa “Can you picture what will be, so limitless and free. Desperately in need of some stranger hand in a desperate land?”. De novo, você não entende o recado que é um só “This is the end beatiful friend”. Jim, chora ao telefone, diz que te ama. Não vamos discutir amor. Você responde que sabe o que está fazendo, mas não sabe. Afinal, você acabou de lançar todas as fichas em um jogo em que só queria que acabasse logo para você deitar em lençóis sóbrios e pouco confortáveis, tendo a certeza que ao acordar estaria tudo certo e que foi só um sonho.

Bem, até aí você já tinha previsto tudo isso. Vamos lá, pessoas certas em momentos errados. Fica calmo, não quero discutir amor agora, mas não era amor que estava rolando ali. Você pode chamar de compensação. Acho que grandes histórias de amor nascem de grandes desastres românticos. E é um lance complexo. É um ciclo: você se fode, encontra alguém que concerta a cagada e aí você fode tudo. Eu sempre vi isso de fora, mas participar disso tá fodendo a porra do terceiro chacra. A conta é simples, a constante é o karma, o que vai volta, os envolvidos com filosofia chamariam de jusnaturalismo.

Como resolver isso? Faço a menor ideia, acho que se conformar é o que tenho feito. Já tenho sentido a sensação que eu vou me foder, está nítido, claro, obvio é a minha sorte. Minha estratégia é o famoso foda-se, vou fingir que sou idiota. Não que eu não seja. E deixar rolar.
Posso brincar de ser o capitão do barco também que carrega a merda de uma bússola e finge que sabe pra onde está indo. Assim, estaria controlando a minha sorte. Preciso trabalhar melhor essa ideia dentro da minha cabeça, mas aí eu teria que discutir amor. E isso é foda.

Mas vamos lá, vamos falar de amor. Eu poderia consultar os grandes mestres da literatura, os grandes poetas, ou ouvir algumas músicas românticas. Mas, ao invés disso vou só abrir outra cerveja e acender outro cigarro. Cheguei a conclusão que eu não entendo o que esses caras falam, e é tudo muito bonito, melancólico, romântico, profundo, enfim.
E é uma merda, amor é uma coisa muito subjetiva, cada um entende como quer. Pra mim amor pode ser um “só não me fode”.
Cheguei a conclusão que eu prefiro ouvir um “relaxa, que não vou te foder” do que um “te amo”.
Por fim, não vamos falar de amor.
Davi Thevaske
Enviado por Davi Thevaske em 17/04/2018
Reeditado em 17/07/2018
Código do texto: T6310951
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Davi Thevaske
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Davi Thevaske