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PRONTOS PARA O AMOR (?)

Foge ao meu restrito conhecimento e foge a todas as tuas esfarrapadas e gastas explicações (ou deveria dizer  falta delas), há entre mim e ti  este espaço que parece vazio, mas sempre  lotado até a tampa de uma espécie de espanto, um resvalar pela borda, uma repentina e rápida contrariedade a todas as leis conhecidas e comprovadas cientificamente.

Como num pulo repentino, arrisco uma queda, um tombo, um passo além da borda, uma pontinha de pés à beira do abismo. Equilibro-me, malabarista, no segundo imediatamente antes do mergulho, num oposto de chão, um anúncio de céu , com corpos entre a vida e a morte. Doce morte. Há neste espaço, neste mínimo e milimetrado espaço do qual não podes declarar-se ignorante ou desavisado, um  sinal, uma marca a ferro quente, uma tatuagem, um quase estigma, impossível de se apreender. Um momento que não se pode transformar em palavras: só experiência e gozo. É êxtase e pânico ao mesmo tempo: sem nada mais além da alma do jeito que ela deve ser, límpida e trespassada pelo gume afiado do sentimento mais que real e a um tempo inapreensível.

Há, bem aí, algo sério – ambos sabemos – que não há como explicar  aos que não compartilham conosco  dos desastres que levamos nas mãos,  da bagunça geral que toma conta das mentes embaralhadas por apelos do coração; que nem de perto viram o perigo em que consiste este estar-se fora de si tão perto e tão distante, estar dentro estando fora do corpo e que nos torna este nós mais consistente, persistente e concreto. 

Dos meus olhos para os teus este algo tateia e tece, paciente, a  teia indestrutível e secreta de todas as palavras silenciadas e que desconhece interrogações. Eu sigo voando alto sem me preocupar muito com o tamanho do tombo, assunto esse – que tu sabes e eu sei – do qual eu entendo tanto que já me acostumei a ele. Tu continuas, obstinada e continuamente, cravado num ponto da tua razão que, em sonhos ou vigília, te lembra quanto de bom senso falta nela. Ironia, não é?

     Este algo - tu sabes, eu sei – viajará feito andarilho conosco pela eternidade afora, neste meu vôo cego ou no teu quase naufrágio.  Tens aí contigo, dentro de ti, a faca bem afiada: arranca de ti a âncora para que este “ juntos” seja concreto e realizado. Ou vá (ao) fundo com ela.



       Só não me peça para ir junto. Minhas asas são como as cabeças da Hidra: a cada corte de uma, nascem duas mais. Corte a âncora. Plante asas no teu coração. Te dou as minhas, se precisares. Tenho inúmeras.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/09/2007
Código do texto: T666070

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 55 anos
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Débora Denadai

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