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O mundo é assombroso

Ao fim de um longo dia, com os ossos cansados e os olhos soterrados pela poeira e pelo asfalto, algo me diz que é preciso ter fome, fome de viver, para não fenecermos e para continuarmos andando, para não engolirmos em seco a morte, a miséria e a opressão, para não nos desgostarmos de tudo e nos tornarmos cínicos insuperáveis e céticos vazios e autodestrutivos.

Vivo num mundo de permanentes milagres: que meu coração pulse, que a pele dela seja mais quente que o sol, que o vento acaricie as árvores e que um olhar nunca seja igual ao outro; que a vida flua em mim em abundância apesar dos meus fantasmas, das minhas chagas e das minhas dores; que um convalescente encontre forçar para sorrir, que a moça triste tenha encontrado seu amor, que o menino pobre tenha conseguido sonhar com dias melhores; que exista alguma coisa e não nada, que as coisas sejam do jeito que são e não de outra forma: eis aí o milagre.

Quando é que deixamos de nos maravilhar com o mundo? Quando é que nossa pele ganha o verniz embrutecedor que nos dessensibiliza, e nossos olhos nada vêem a não ser a falta das coisas, o lado manco e fraturado de nós todos?Quando é que nós deixamos de buscar a vida nas mínimas coisas, embaixo das pedras, no zumbido das moscas e nas ondas do mar?Quando é que as pessoas se demitem da própria vida e sufocam essa luz que emana de nossos rostos e que não tem outro nome a não ser a própria vida?

Por onde olho quando me movo vejo coisas tão assombrosas que simplesmente não consigo entender o porque da necessidade de Deus. O que há já não basta?Ou talvez até entenda: talvez a experiência do absoluto oculto e anônimo seja forte demais para a maioria das almas, daí a necessidade de um anteparo, para que a vertigem da criação seja atenuada, postergada, suavizada. Por onde olho as coisas existem silenciosamente, como se houvessem sido criadas em focos de poiesis infinita e simplesmente sem nenhum sentido dado a priori. A vertigem do mundo é que as coisas existam e se criam apesar de nós.

Que as coisas existam, isso é miraculoso.  E que vocês estejam lendo as minhas palavras e estejam entrando em comunhão com essa prece que em mim habita perenemente, isso também é enigmático.

E que o mundo seja assim, essa bruxeleante criação incessante sem eira nem beira, delicada e louca, é que é desconcertante.

O mundo me desconcerta. O mundo, meus caros, é assombroso.
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 27/09/2007
Reeditado em 28/01/2008
Código do texto: T671562
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
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Leonardo Soares