Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MAGIA E A PRÓXIMA ESQUINA

É um canto bobo o cantar do triste. Nele há uma doçura em que não se mede a presença nem a ausência; sequer a solidão. Esse temeroso mistério é plástico tal a cabeleira verde do salso-chorão à beira dos riachos.

Ninguém jamais soube por quem chora – permanentemente – o salso. Seus ombros caídos e a gloriosa coluna cervical dobrada, como se lhe pesassem asas de um anjo exterminado.

O exterminador, o anjo capaz de tudo na tarefa de expulsar o Demo, tem costas retas, altivo mastro de bandeira: uma palmeira real e sua rala cabeleira.

E por que somente os salsos choram?

Nunca se soube que uma palmeira tenha chorado copiosamente. O que se observa são os olhos mareados ao tempo dos ventos de outono, ao lhe roubarem suas curvas palmas.

E nem por isto, por sua altivez e rarefeito choro são menos belas estas vegetais rainhas. Talvez porque o tempo cicie música em suas folhas.

O poeta é esse salso-chorão que se encurva sem nenhuma vergonha de chorar em público.

No entanto, é palmeira real ao emitir o seu canto: a fortaleza da palavra, recanto de magia vária. Talvez seja este o gume da espada do Anjo Gabriel em sua gesta de expulsar demônios.

É quando o espírito faz sua noite de glória, aquela em que o pensamento é a rocha elementar: o choro e o riso, a incontida emoção e a vigilante razão.

O gesto gráfico, aquele que rabisca o canto mudo, expulsa o poeta para fora do corpo.

E o hilário grifo, a blasfêmia ou o lirismo pousam na folha de papel tal um elefante com medo do rato.

Saibam os olhos de jararaca dos guarda-vidas da sóbria intimidade da moralidade pública, que demônios apresentam-se como hidras de múltiplas cabeças. Fênix renascida, a palavra dita e lavrada é cruel vencedora.

Porque o canto de se divergir é longo em todos os dias peregrinos em que se buscam respostas. E descanse em paz a aurora porque nem todos os poentes têm olheiras roxas.

Espreitam-nos sempre os cochichos que nada dizem. Também a posteridade, nos olhos das esquinas.

– Do livro CONFESSIONÁRIO / EU MENINO GRANDE. Porto Alegre: Alcance, 2008, p.278:9.
http://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/687971
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 10/10/2007
Reeditado em 03/05/2013
Código do texto: T687971
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Joaquim Moncks). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
2915 textos (777678 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/12/17 11:31)
Joaquim Moncks