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AS MOCINHAS DA CIDADE

De calças curtas branca, seguras por suspensórios em listas vermelhas e azul, camisas de punho na cor amarelo clarinho, meias três-quartos brancas à altura dos joelhos, e sapatos em verniz de amarrar, brancos também, seguia o menino de mãos dadas com sua mãe pela Marechal em direção à Catedral na praça Tiradentes  para entrar no céu, já que faria sua primeira comunhão. Havia confessado na igreja do bairro no dia anterior, sentia-se assim ungido, livre de todos os pecados, destes pecados graves dos meninos de sete anos. Nas mãos um boné ao estilo Sherlock Holmes, quadriculado em cor cinza, o livrinho de catecismo e o rosário de madrepérolas. O bonde subia a Marechal, dobrava à direita parando no ponto em frente a farmácia Stelffeld cujo prédio possuí um relógio de sol na sua fachada. Os parentes convidados chegaram de lotação, linha Água Verde – Praça Tiradentes.
Todos reunidos ao movimento de convidados, das outras crianças, apinhavam de pessoas a igreja. Na escadaria da entrada ficaram os mais descrentes contando piadas e fumando descontraídos. A paisagem na praça fervilhava de moças em seus melhores trajes e posturas falsamente indiferentes. No vai e vem, olhavam vitrines do Prosdócimo que exibia eletrodomésticos, louças, bicicletas etc., da Casa Maser com a moda de roupas infantis, das Ferragens Hauer com ferramentas e insumos, e a Casas Pernambucanas com novidades em tecidos. Alguns subiam até o Largo da Ordem em busca de verduras e frutas nas carroças das “nonas” de Santa Felicidade.
O sol de outono brilhava no céu sem nuvens. Dentro da igreja a cerimônia chegava ao fim. O menino se viu deslocado em meio às meninas que recebiam a hóstia pois como se tratava de primeira comunhão de colégio católico de freiras haviam ignorado momentaneamente o único menino de toda a turma. Puxado por uma freira conseguiu chegar ao padre antes de que fosse encerrada a cerimônia e receber sua hóstia. Sentiu um certo gosto de sal e indiferença. Sentiu o olhar de reprovação do religioso e saindo da igreja falou baixinho “vai tomar no cú, seu padre viado” acabando pra sempre sua entrada no céu.
Os chauffeur dos carros de praça abriam as portas para receber as pessoas que saiam da igreja. Os convidados se apressavam para tomar lugar e se dirigir para o almoço de comemoração na Churrascaria Parque Cruzeiro A Churrascaria Cruzeiro era famosa, tanto pelo churrasco como pelo local, que também era conhecido com Parque Cruzeiro. Quando o tempo permitia, o churrasco era servido em mesas instaladas na sombra das grandes árvores que existiam no local.
O menino embarcou no Chevrolet ano 51 com a família, ligou o rádio na estação PRB2 e passou a cantar com o Regional do Janguito, Nho Belarmino e Nha Gabriela, “as mocinhas da cidade, são bonitas e dançam bem....”  e assim seguiam para o almoço. Ele já sentia o sabor da Gengibirra gelada e da sobremesa de sagu de vinho. Deveria ter comunhão todo domingo, pensava.
Os adultos bebiam cerveja sentados em bancos únicos de cada lado da mesa de madeira bruta, cobertas com toalhas quadriculadas azul e branca ou vermelho e branco distribuídas pelo terreno embaixo de grandes árvores que sombreavam a tarde quente. O almoço se estendeu pela tarde em meio a folia das crianças, carne assada, maionese, salada de feijão cavalo, cebola, tomate, verduras com bacon, guaraná caçula Antarctica e muita cerveja “casco escuro” de preferência.
O domingo enfim se despedia, um sopro de friagem encerrou a tarde. O menino sentiu a nostalgia da despedida. Se já conhecesse Pablo Neruda diria:” Desta vez me deixa ser feliz. Nada aconteceu a ninguém, não estou em parte alguma, simplesmente sucede que sou feliz pelos quatro costados do coração, andando, dormindo ou escrevendo. O que posso fazer, se sou feliz.”
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 21/06/2020
Reeditado em 21/06/2020
Código do texto: T6983791
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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Humberto Bley Menezes