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Coração Selvagem

Ela chega e senta lá, sozinha. As pessoas passam por ela, fluem estranhas ao seu redor e ela observa. Ela pouco se move. É como uma rocha no meio de um rio de rostos, nem na margem esquerda, tampouco na direita. E, mesmo parada ali no meio da correnteza de vidas, ela parece estranha a eles e eles a ela, mas não a mim. Para mim, é um espetáculo secreto que me prende. Há gente rindo, gente brigando, gente lendo e escrevendo livros e pessoas, mas apenas ela me prende assim. Ela não sabe. Se soubesse, não seria tão bonito, nem teria esse gosto. Se um dia ela souber, talvez eu nunca mais capture esse brilho no olhar, essa expressão. Ela observa o mundo e eu a observo. Tento imaginar o que ela pensa. Claro que nunca saberei, e nem quero. Isso tiraria toda a graça. Esse mistério na quietude singular dela é que me prende. Esse brilho secreto em olhos de raposa. Eu, que acredito capturar o brilho dos olhos dela sem ser percebido, sou enfeitiçado por seu charme felino e nem percebo. Há muito mais para ser percebido e apreciado nela que em todo o resto dessa paisagem noturna. Como, mesmo tão séria e ignorando ser observada, ela parece sorrir? Como posso eu me sentir tão perto se estou tão longe?

Quando eu descer as escadas e for ao pátio, vestirei novamente meu sorriso desconfiado e meus olhos cerrados de lobo cansado e talvez ela nem perceba que a imagem dela ficou congelada na minha retina, que roubei um pouco de cada uma de suas cores e guardei em minha íris. Assim, eu poderei vê-la no escuro do meu quarto antes de dormir. Se pintá-la com cores fortes, poderei carregá-la comigo para meus sonhos, poderei tê-la por perto enquanto conseguir me manter adormecido. Essa ilusão é tudo que posso ter agora. No entanto, em meus sonhos estou sentado ao seu lado, flutuando com ela no centro do fluxo de rostos e idéias, estáticos, pois qualquer movimento que eu cria para ela no meu sonho seria apenas um reflexo da minha vontade, e isso não pode ser isso tiraria o brilho de seus olhos. É assim que gosto dela: selvagem, livre. Terei que descobrir um jeito de ter sem possuir, de guardar sem prender. Eu não sou um conquistador. E eu não conheço os truques das raposas. Preciso me transformar em brilho para que o brilho dos olhos dela se encontre em mim. Não posso caminhar nem à direita, nem à esquerda. Somente me atirando no centro do rio, no meio do brilho dos olhos dela, perdido entre o cheiro de plantas molhadas e o gosto de pêssego, que é tudo que guardo dos beijos. Que ironia eu ter que afogar meus sentidos em álcool para conseguir me vencer e roubar um beijo dela. E agora busco o que alcancei com estes mesmos sentidos naquele dia.
A esta hora ela já dorme em terras distantes, mas as cores eu guardei aqui, perto de mim. Ela ainda não sabe que deixou uma parte dela em mim. Acho que eu também devia dormir, mas perdido em lembranças, como estou agora, o sono não me alcança. Uso-as, as lembranças, para desenhá-la na tela escura da noite do quarto. Sempre começo pelos pés e deixo o rosto por último. Desenhar o rosto é como desenhar um pouco de cada coisa, um pouco de cada parte do corpo e de cada sensação que despertam em um espaço um pouco maior que um coração.
Gerson Boaventura
Enviado por Gerson Boaventura em 23/10/2007
Código do texto: T706130

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Sobre o autor
Gerson Boaventura
Fortaleza - Ceará - Brasil, 35 anos
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Gerson Boaventura