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A sabedoria de um pote de barro

Tenho um pote de barro em minha cozinha de alvenaria. Esse pote vive comigo há mais de 30 anos. Comprei ele assim que me mudei para esse terreno que vivo na Lavagem e desde esse período compartilhamos as ilusões da água. Ele esfria a água com uma precisão maravilhosa e adoça minha memória toda vez que bebo seu conteúdo. Me recordo das coisas que vivi em minha juventude pelo meio do mundo como caminhante que espalhava segredos do passado com os pés. Em cada arrancho que me acheguei também me esperava um pote de barro, nele enchia minha moringa e refrescava minha imaginação.

Jamais coloquei um balde de água dentro de meu pote que não fosse coado por um pano. Amarro um paninho de prato bem lavado na boca do pote e ergo o balde até a abertura para despejar a água. O líquido escorre devagar pelo pano, deixando na superfície branca um misto de raízes e ferrugem que saem da bomba de água. Esse foi um segredo que aprendi com minha mãe em minha infância de barro nos anos de 1940. Na cozinha da mamãe também havia um pote de barro tão velho quanto o meu. Esse seu pote tinha sido dado pela minha avó assim que minha mãe se casou. As duas eram tão parecidas. Elas me transmitiram saberes muito antigos aprendidos com suas avós, entregues muitas vezes pelos Encantados ao longo de suas jornadas por essa terra.

O meu pote me reconecta com esses saberes, com as andanças de minha avó dentro da noite iluminada por um tição de lenha, com as panelas de cebola da minha mãe, com as estradas que eu trilhei, com o voo dos Encantados pelos astros. A água do meu pote de barro adoça todas as coisas que se ajuntam no passado e reclamam meios para renascer no presente. Quem imaginaria que um pote de barro poderia conviver com uma geladeira? Que esse instrumento feito pelas mãos do artesão poderia alimentar um item comprado no grande comércio? Pois a água que resfrio da geladeira é retirada do meu pote de barro onde é cuidadosamente guardada.

O pote de barro vive em minha cozinha, vive dentro de mim a cada vez que me debruço sobre ele com meu caneco de alumínio. O caneco de alumínio é outra coisa que gente pobre como eu jamais pôde esquecer. Ele descansa em cima de meu pote de barro até que chegue o momento molhá-lo, enchê-lo com as águas frias. É com o caneco de alumínio que encho as jarras da geladeira e irrigo minha imaginação. Não se sente o mesmo sabor em uma água tomada num copo de vidro. As experiências são muito diferentes.

Sinto saudades do piso de terra batida sobre o qual meu pote repousava, mas não reclamo do chão de cimento grosso. Ele se esforça em preservar minha ligação com o chão, essa terra miúda que senti tantas vezes sob solado dos pés. Alguns me criticam por gostar de andar com os pés descalços, mas de que outra forma poderia sentir tão vivamente o chão de nossos antepassados? O chão preserva nossas origens, assim como o barro do pote nos recorda do antigamente. Ao olhar para o pote me lembro de minhas panelas de barro, do meu caco de torrar o café, do caco de fazer o beiju.

Preservo essas coisas vivas em minhas lembranças, muito embora as coisas mudem muito conforme o tempo avança sobre nós. O pote de barro me acompanha e nele se inscreve a minha própria vida e a de meus ancestrais. Tenho certeza de que se eu morrer, ele poderá continuar a contar as estórias que não pude. Basta beber sua água. É por meio da água que ele nos revela o mistério do Antigamente.
Maria Toinha e Marcos Andrade Alves
Enviado por Maria Toinha em 14/01/2021
Código do texto: T7159564
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Maria Toinha
Trairi - Ceará - Brasil, 84 anos
6 textos (68 leituras)
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Maria Toinha