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CAIXA DE FÓSFOROS - parte 1

          Depois da última briga dos meus pais, tranquei-me no quarto. Eles, que já falavam sobre separação há algum tempo, dessa vez mostravam-se mais próximos do divórcio do que antes.

          Acompanhado por meu celular, onde a internet é onipotente em saciar-me, entrei em mais um site imoral para, no rápido prazer, aliviar de modo hormonal a longa briga psicológica que já levava a meses infindos desde a morte do meu avô. Meus tios não foram tão afetados quanto a minha família, já que meu pai era o caçula do falecido.

          A noite, qual garça noturna, voava, enquanto eu torcia para que o Wi-Fi fosse mais resistente que meu ânimo diante daquela miséria moral e me permitisse visitar todos os locais possíveis na tentativa de escapar dali. Minha mãe bateu na minha porta. Não fui abrir. Ela entrou:

          - Filho? - sua voz era chorosa.

          - O que foi, mãe?

          - Creio que já sabe.

          - Sim. Até os vizinhos sabem. Agora fecha a porta.

          - Eu vou embora.

          - A SENHORA? - meu celular permanecia em minhas mãos.

          - Filho…

          - Ah não! Pra que vocês me puseram no mundo? Por que a "MINHA VIDA" tem que ser desgraçada dessa forma?

          Virei-me para a parede. Tanto por dor quanto por ignora-la. A segunda não era possível.

          - Eu te amo, filho!

          Ela retirou-se. Pude ouvir fungados de lágrimas e lamento vindo do outro lado da porta.

          Coloquei os fones e no volume máximo Legião Urbana e seu Vento No Litoral me acalentou os ouvidos, mas nada a música levou embora. Apenas a bateria viciada do meu celular. Com o travesseiro molhado pelo meu olhar seco, desisti de ficar online e quis dormir.

          A manhã seguinte não demorou a vir, pois o sono acelera o tempo e anestesia a mágoa. O sol ergueu-se. Tentei fazer o mesmo. Vi meu pai dormindo no sofá da sala. Nunca foi de beber, mas desde a morte do meu avô, seu comportamento cada dia acrescentava um novo vício. Fui até o quarto dos meus pais. O guarda-roupa da parte da minha mãe estava vazio.  Saí de casa em silêncio. E sem rumo.

          Caminhei até chegar a uma rua onde um dos vizinhos me viu:

          - Bom dia, Júlio.

          - Seu Hector.

          - Tá tudo bem? Eu vi sua mãe saindo de carro com um rapaz hoje cedo. Era Uber né?

          Eu sabia onde ele queria chegar.

          - Estou atrasado. - Mesmo que não fosse para lugar nenhum. - A gente se fala, seu Hector.

          Corri. Não era a primeira vez que alguns vizinhos suspeitavam que minha mãe traíra meu pai.

          Um ônibus se aproximava do ponto. Dei sinal por instinto. Lá dentro, um banco perto da janela se esvaziava. Mas fiquei em pé. Não importava. O desemprego já durava mais de um ano e a faculdade trancada não me trazia boas lembranças.

          O trajeto me era metafísico ou psicológico.

          Desci na porta do cemitério onde meu vó foi enterrado. Andei por entre as covas e cada epitáfio me chamava atenção. Queria ir até o do meu avô e tentar lembrar o que estava escrito no dele.

          Até que em um dado instante uma mão tocou em meu ombro:

          - Por que procuras entre os mortos… - esse texto ele amava dizer.

          - Vô Gumercindo? - reconheci ao virar-me.

          E num abraço com lágrimas desfiz toda minha mágoa. Ele não estava gelado como dizem os filmes, nem me largou, mesmo com todo o escândalo choroso que eu fazia:

          - Por que você foi embora, vô? Por que?

          - E quem disse que é necessário que eu vá por completo? Não estou aqui?

          - Mas... o senhor tá morto. Desde aquele dia minha casa virou um inferno. Estou desempregado, meus pais viviam brigando e agora minha mãe finalmente saiu de casa.

          Seu silêncio refletia o barulho do meu peito. Ele sabia a hora certa de falar.

          - Já conversou com seu pai sobre aquilo?

          - Não vô. Ainda não.

          - Continua evitando?

          - Não é isso, vô. Só creio que não é a hora certa de fazer isso.

          - Meu netinho, não pode adiar as coisas por tanto tempo. Uma hora ele vai ter que saber. A verdade dói, mas é necessária.

          E realmente eu teria que contar pro meu pai. Só não sabia como.

          - Não aguento! Pesa muito pra mim!

          - Ei! Para de chorar! Olha pra mim!

          - Trouxe uma coisa pra você. Quero que fique com isso.

          Ele me deu uma caixa de fósforos.

          - Mas pra que isso, vô. É pra acender alguma vela pro senhor?

          Ele riu.

          - Não, bobo. Escute: guarde isso com você. Não mostre a ninguém. Todas as noites quero que risque um fósforo e observe a chama com muita atenção até extinguir-se. Porém no último fósforo, conte a verdade a seu pai. Depois, o acenda.

          - Vô, eu não tô entendendo. Pra que que eu vou…

          - Apenas faça o que eu digo. Preciso ir.

          - Ah não! Por favor, por favor, não vai, vô. Eu só tenho o senhor que me…

          - Te amo.

          E sumiu.



Continua…
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 30/09/2019
Código do texto: T6757257
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
75 textos (3298 leituras)
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Leandro Severo II