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CAIXA DE FÓSFOROS - parte 4

          Meu pai foi até meu quarto:

          - Oh moleque, você é surdo? Tô te chamando faz um tempão!

          - Senhor, pai?

          - Acabaram de ligar. Confirmei uma entrevista sua pra hoje.

          - Entrevista? Mas como assim? Pra onde?

          - E eu é que sei, menino? Falaram que você mandou currículo e no dia a vaga pedia experiência. Aí abriram um novo processo seletivo. Viram seu cadastro e chamaram.

          - E que horas é isso?

          - 9h00. Lá na rua D.

          Separei meus documentos numa pasta e fui me arrumar. Sem banho.

          Não sabia passar roupa, então vesti uma camisa social amassada mesmo.

          Por impulso do desconhecido, coloquei a caixa de fósforos no meu bolso. Antes de sair, meu pai me disse:

          - Queira Deus te contratem, Júlio. Você sabe… Agora que somos só nós dois precisa me ajudar com as contas. Não aguento mais pagar tudo sozinho e não quero que os outros digam que tenho um parasita em casa.

          - Sim, pai. Tô indo. Bênção.

          Ele não me pôs a bênção. Voltou pro sofá acenando com a mão.

          No ônibus não havia lugar pra sentar. Um jovem de boné ouvindo uma música horrivel estava no assento preferencial enquanto uma idosa ia em pé.

          "Que idiota! Vou pedir pra ele se levantar e dar o lugar pra ela".

          Ficou só no meu pensamento.

          Minutos depois ela desceu. Duas moças com roupa colada subiram. O jovem se levantou e deu lugar a uma delas. Sussurravam uma música parecida com a que ele estava ouvindo antes.

          Uma mulher muito corpulenta foi passar perto de mim. Ela me jogou em cima de um passageiro que ia dormindo. Minha camisa até saiu da calça.

          Passado muito tempo dei sinal e desci bamboleando. Nem trabalhei e já estava cansado. Muitos passageiros desceram no mesmo ponto.

          Fui ver as horas no meu celular. Não o achei.

          Vasculhei todos os lugares e bolsos procurando e nada.

          Com as mãos na cabeça quis gritar de raiva. Até suspeitei do jovem de fone.

          - Amigo, que horas são, por favor? - perguntei a alguém no ponto.

          - 9h00.

          - Sabe como faço pra chegar na rua D? - perguntei embolando as palavras.

          - Você atravessa a avenida e pega a primeira esquerda. Depois segue reto e sobe a ponte. Aí vira na segunda direita.

          - Ok. Obrigado!

          Esqueci todo o trajeto assim que atravessei correndo a avenida com o farol fechado pra mim. Perguntando a um e outro achei a empresa:

          - Bom dia!

          - Posso ajudar, senhor? - o recepcionista passou os olhos em mim como quem passa um detector de metais.

          - Vim para a entrevista.

          - Tá atrasado. Documento com foto, por favor.

          - Tá aqui.

          - Certo. Passa esse cartão na catraca. Quarto andar. Sala com porta de vidro ao lado.

          - Obrigado.

          Ele não respondeu. Apenas respirou fundo quando viu minha dificuldade de acertar o sensor pra passar o cartão.

          Na sala com porta de vidro tinha várias carteiras. Quase todas ocupadas. Sentei bem atrás de um rapaz que desceu no mesmo ponto que eu. Reconheci pela camisa social azul não menos amarrotada que a minha.

          Uma mocinha entrou, falou sobre a empresa e sobre a vaga.

          Distribuiu canetas, fichas pra preencher, provas com 30 questões e folhas pra redação. Ela saiu da sala e nos deixou escrevendo. De repente se ouviu um sonoro:

          "CACETE! Esqueci o número do PIS!"

          Era o moço de azul. Ele não era o único que esqueceu.

          Algumas questões não faziam sentido pra mim. Não conseguia me concentrar direito.

          Ainda pensava no celular. Meus sites, meus vídeos, meus jogos, meus contatos, meu mundo. Meu. Meu. Meu.

          Enquanto faziamos a atividade a mocinha foi chamando um por um numa sala a parte para que ela e o gestor fizesse uma entrevista particular.

          Só ficamos eu e o moço de azul. Ele foi chamado. Fiquei sozinho na sala.

          Quando ela me chamou eu nem tinha terminado a redação. Entreguei nas mãos de Deus e pra ela.

          Na outra sala estava um rapaz de bigode e terno. Sentei na frente deles. Com certeza se aquele homem não tivesse bigode eu teria menos medo. Ambos fitavam na minha prova. O bigodudo anotava algumas coisas:

          - Faltou o número do PIS, hein. - ela disse.

          Deu mais medo ainda. Ela parecia ter bigode também.

          Depois de algumas perguntas que me fizeram, ela falou com um sorriso:

          - Ok, moço. Gostamos de você. A vaga é sua!

          - QUE?

          Bati com as mãos na mesa sem querer. O barulho foi constrangedor:

          - Sim. A vaga é sua! Mesmo que tenha trancado a faculdade, você foi muito bem na prova. Achei interessante sua redação.

          Não lembrava nem do tema:

          - Ah moça! Muito obrigado! Muito obrigado mesmo!

          - Na verdade nós iríamos contratar o penúltimo candidato. Ele foi muito bem, mas chegou aqui e desistiu do processo.

          - Qual? O… O de camisa azul?

          - Sim. E deixou uma coisa dizendo que era sua.

          - Oxe?! Minha? E o que era?

          - Esse celular é seu? Não tem papel de parede com seu rosto.

          - JESUS CRISTO! É ELE! MEU CELULAR! MEU DEUS! GRAÇAS A DEUS! É ELE! Eu perdi ele no ônibus hoje de manhã!

          - Ele disse que chegou uma mensagem estranha. Por isso desistiu da vaga.

          - Mensagem? Ha ha ha! Deve ser de cobrança e se assustou! Sabe como é né...

          - Moço, enfim. - disse o bigodudo sisudo - Depois de amanhã traga uma xérox de cada documento e passe aqui para conversarmos, ok?

          - Ok. Ok. Obrigado! Obrigado!

          Pus o celular no bolso, apertei a mão dos dois e saí.

          Meu corpo vibrava. Chorei de alegria. Me senti livre.

          Peguei o celular (queria postar no status do whatsapp um enorme GLÓRIA A DEUS!) e fui conferir as mensagens. Uma era da minha mãe:

          "Filho. Estou com câncer. Ora pela mãe."

          Meu semblante se desfez. A barriga gelou. Minhas mãos tremeram.

          De repente ouvi alguém me dizer:

          "Calma, rapaz! Seja forte!"

          Virei pra ver quem falava comigo. Era o moço de camisa social azul amassada. Ele estava de costas.

          Dei alguns passos em sua direção. Ele se virou e olhou pra mim. Levei as mãos à boca de assombro:

          "O que é isso? Ele tem o meu rosto?!"

          Foi quando abaixou a cabeça e adentrou numa rua. Corri em sua direção, mas não o encontrei mais.

          No meu bolso, vi duas coisas brilhando. Eram dois fósforos que queimavam…


          Continua…
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 04/10/2019
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Leandro Severo II