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CAIXA DE FÓSFOROS - parte 6

          - Vamos sentar em outro lugar. - disse o homem de azul que se revelou meu avô.

          Sem muita gente no ônibus naquele horário, fomos pro fundo. Sentei na janela. Ele esperou que eu falasse algo, mas fiquei com o rosto voltado pra rua em movimento.

         - "Conduzindo a carroça do tudo pela estrada do nada".

          - Senhor, vô?

          - Álvaro de Campos. Tabacaria.

          - Ah tá. Tive isso na facul. Era legalzinho quando a professora explicava.

          - Pensa em voltar a fazer?
     
          - Penso. Mas agora pensar me incomoda.

          A voz daquele homem no outro lado da linha, a forma que minha mãe falou com ele… minha angústia crescia. Suspeitar é pior do que saber.

          Lembrei das brigas dos meus pais. Os gritos. Os xingos. Tivemos bons momentos como família, contudo eles não acharam espaço em minha mente.

          Cogitei se minha mãe de fato contraria a vil doença, ou se era pretexto para…

          Já meu pai, ainda abalado com o episódio do vô Gumercindo, virou uma estátua de sal.

          Peguei a caixa com desdém:

          - Posso acender quantos fósforos?

          - Quantos quiser, Júlio. Saiba, porém, que sonho e pesadelo se misturam.

          Guardei-a.

           - E meu pai?

          - Não sei porque você ainda não contou.

          - Vou contar. Calma. Não é facil pra mim também.

          - Quanto mais tempo passa menos ele suspeita.

          Disse isso e sumiu. Desci do ônibus.

          Em casa, meu pai veio até mim:

          - E aí? Deu certo?

          - Não.

          - Como assim, Júlio?

          Ele não me xingaria. O fato de outra entrevista ser semente jogada a beira do caminho é que não descia, já que ele sempre teve facilidade de arranjar serviço.

          - A entrevista não deu certo, pai.

          Ele respirou fundo e sorriu:

          - Tudo bem, filhão. É assim mesmo. Quer comer algo?

          - Não, pai. Tô sem fome.

          Segurei a lágrima quente que insistia em sair da pálpebra. Fui pro quarto.

          Vícios são perversos. Apresentam-se como mero entretenimento. Depois tornam-se presentes companheiros. Chegam ao estágio de consoladores, até por fim, dominarem a rotina e levarem a extrema irritação se tentarmos os deixar.

          Com a luz apagada, procurei os sites em que meu mundo doía menos. Deleitei-me.

          Segundos. Minutos. Horas. Remorso.

          Saí daquelas páginas e decidi ver outras coisas. Do engraçado ao interessante. Do Curioso ao trágico.

          "A dor é minha. O remédio quem sabe sou eu!"

          Queria apenas dizer um enorme "DANE-SE!" para o tempo e seus agentes, o mundo e os que nele habitam. Para o criador e criatura. Para mim mesmo.

          Nervoso, soltei o celular na cama.

          Olhei para a caixa de fósforos.

          "Bem que poderia queimar uns vários de uma vez só. Uma overdose onírica não cairia bem."

          Risquei e acendi um. Nada aconteceu.

          Dois, quatro, seis de uma vez. Todos acesos. Nada.

          Lembrei da minha mãe. Tremi de raiva. Apaguei com um sopro a chama dos fósforos e joguei-os no chão. Voltei ao celular.

          "Em matéria de consolo a internet tá mais rápida e prática."

          Naveguei e naufraguei em páginas diversas.

          "Antes fosse câncer."

          Mais internet.

          "Meu Deus! O que eu tô falando? Eles já estavam mal. Tinham que separar mesmo. Nunca se sabia quando seria a próxima briga. De repente no almoço. No carro. A noite. De repente... de repente. É melhor que ela fique por lá mesmo."

          Mais internet. Meu peito latejava.

          "Caramba! A entrevista… deu errado."

          Baixei um jogo. Não consegui jogar.

          "Será que ela volta?"

          As lágrimas vieram com dor. Não resisti.

          Fui pra sala.

          Meu pai foi tomar banho. Deixou o celular dele no sofá. Ele vibrou.

          Com cautela desbloqueei vencido pela curiosidade. Entre as mensagens, algumas eram assim:

          "E aí? A gente se encontra hoje, gato?"

          "Droga! Já visualizei!"

          O que mais incomodava é que eu sabia disso. Desde quando minha mãe morava com a gente ele já aparentava ter uma amante. Antes mesmo do incidente com meu vô.

          Não entendia o porquê com minha mãe o peito doía, e com meu pai não.

          Rapidamente olhei o histórico do celular dele. Era idêntico ao meu. Sujo e disperso.

          "Isso é hereditário?"

          Voltei atônito. Descarreguei como o celular e quis dormir. Depois de alguns minutos meu pai da porta do meu quarto disse:

          - Filho?

          - Senhor, pai?

          - Olha só...

          Eu já aguardava um sermão:

          - Final de semana tá chegando. Pensei em fazer uma coisa pra nós.

          Na hora lembrei da amante:

         - Ah, pai. Não tô muito afim, sabe.

          - Filho… Você nunca foi a praia. Quero te levar pra conhecer o mar.

          Levantei da cama rapidamente.

          - Pra… praia?

          - Sim, filho. Só você e eu. Vamos amanhã cedo. Arruma suas coisas tá.

          Nesse momento meu coração se encheu de alegria. Eu nunca tinha ido a praia e sempre quis ir. Olhei para o chão. Os seis fósforos estavam acesos…


          Continua…
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 20/10/2019
Código do texto: T6774174
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Leandro Severo II