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A BACTÉRIA

Estou aqui dentro dessa massa amorfa e mole, em forma tubular. Estou aqui e não posso sair. Sou uma bactéria e já ouvi falar que nasci dentro de um ser humano. Não sei bem o que é isso, mas sei que é alguém e é meu hospedeiro. Alguém que anda, fala, senta em um lugar e aí se faz muitos barulhos que sai aqui perto. Tem um lugar aqui bem pertinho que sai a sujeira do ser humano. Então me vejo aqui pensando se algum dia desses não poderia sair junto com essa sujeira toda. Essa ideia já me apareceu algumas vezes. Mas, sempre que começo a pensar nela, vem aquelas coisas estranhas, outras das bactérias diferentes e tenho de trabalhar com outras iguais a mim para combater essas inimigas. E lá vamos nós mais uma vez. Ao combate. Matamos aquelas que não se enquadram ao nosso grupo. É natural. Simplesmente partimos na direção delas e as matamos. E elas saem do tubo. Eu não. Eu até um dia pensei se não seria essa a maneira de eu sair, talvez me disfarçando dessas coisas estranhas. E meus colegas me expulsariam. Até que percebi que não poderia fazer isso porque aconteceria comigo o mesmo que ocorreu com as estranhas. Elas saem sem movimento. E isso não adiantaria para nada. Porque o que faria sem movimento? Então pensei que não tenho saída. Cumprirei essa função que me resta. Ficar aqui dentro desse lugar. Dentro de alguém que se chama ser humano. Já ouvi falar que sou bom. Que faço parte do “time dos microorganismos bons” que nasceram já com o ser humano.  O meu hospedeiro já falou em alta voz para outra pessoa que eu me chamava Christensenellaceae. Disse que eu fui recentemente descoberta. Então eu sei disso. Sei também porque ele disse, nesse mesmo dia, que eu talvez teria vindo de alguns alimentos. Então, sei pelo menos um pouco de onde vim. Então será que poderia saber para onde vou? Será que um dia irei me grudar a algum alimento, pois se vim dele, posso voltar para ele? Meu hospedeiro às vezes também se reúne com um grupo de pessoas e muitos cantam e falam da origem dos humanos sendo de um tal de deus. Falaram, também, umas palavras assim: “Do pó viemos, ao pó tornaremos”. Não sei bem o que é isso tudo, mas sei dessa coisa que de onde viemos é para onde iremos. Algo assim. Então talvez eu vá para o mesmo lugar de onde eu vim. Só isso me resta. Enquanto isso devo cumprir minha função aqui. E lá vem mais alguns estranhos. Dessa vez parece que meu hóspede exagerou. Meus amigos se reúnem. São muitos dessa vez a serem combatidos. Epa, fomos encurralados. Sim, eles me pegaram. É agora? O que vai acontecer comigo? Sei que agora me resta o combate. Preciso resistir. Mas parece que não vai dar dessa vez. Mas, vieram mais colegas e me salvaram. Estou livre. Obrigado, amigas, quis repetir essas palavras que já ouvi de meu hospedeiro, mas não pude. Mas, parece que elas me entenderam. Elas ficaram ao meu lado, se agrupando como nunca aconteceu antes. Isso me pareceu não tão natural como a mecânica do combate que relatei acima. Então descobri algo. Descobri que posso subir um pouco e falar de alguma maneira com meu hospedeiro. Ele me entendeu e colocou isso no que ele chama de palavras. Posso senti-las aqui. Estou muito feliz com isso. Ele me diz que as escreveu. Posso dizer a ele que estou grato porque apesar de uma bactéria tenho um nome. E tenho esse destino aqui e agora. E seja o que Deus quiser de mim no futuro. Como dizem alguns de outros humanos que falam com o meu hospedeiro, em alguns momentos. Seja o que Deus quiser. Ao pó ou ao alimento? Ou a outro destino tornarei? Mas, de antemão, estou conseguindo ser ouvido. Que bom, que bom. Lá vem mais um a ser combatido. Vamos, amigas!
Alexandre Scarpa
Enviado por Alexandre Scarpa em 20/11/2019
Código do texto: T6799414
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Sobre o autor
Alexandre Scarpa
São Vicente - São Paulo - Brasil, 39 anos
151 textos (3345 leituras)
1 e-livros (8 leituras)
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Alexandre Scarpa