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O FRIO, O SERTÃO - CAPÍTULO II

Era verão, um calor não tão grande, afinal mesmo sendo sertão nordestino, aquela cidade ficava no alto das serras, e se dava ao luxo de produzir até frio durante a noite!
Na matriz o assunto era o mesmo, as pessoas passando conversando daqui, dacolá, pessoas tomando sorvete, trabalhando de carregar compras nos ombros, em carrinhos de mão, que lá é chamado de carroça ou mesmo em reboques de moto.
- Oooláa... Com tanta calma, que quase fazia dormia aquele que ouvia.
- Dona Suely! Bom dia! Respondeu atenciosamente o dono da mercearia, sem deixar de fitar-lhe o decote quando baixou a cabeça em sinal de reverência. E que decote!
- Ói meu lindo, tens aí... É... Macaxeira? – Ela pediu, e como provocava quando fazia seus pedidos, era quase uma intimação, uma proposição de ‘maravilhas’, que fazia de qualquer de inferno a terra das delícias.
Seu Tonho Boi, o dono da mercearia, conteve-se para não dar a resposta que aquela inquirição merecia:
- Temos sim Dona Suely! Ô Albercleto! Mostre a macaxeira para Dona Suely! – Gritou seu Tonho com aquele sotaque luso-enrolado.
- Brigadinha... – E foi em direção à macaxeira, e como rebolava dona Suely, naquele jogo de pernas com os quadris, para um lado e outro, ajeitando os cabelos lisos e louros para trás, com um sutil movimento de cabeça, e um olhar pra trás, que condenava todo aquele que acompanhasse seus olhos.
Mas Dona Suely era casada, e era um casamento sólido até então, um casamento arranjado pelos pais, para uma menina de dezesseis anos. O que mais se perguntava era: “E isso vai prestar?”. Isso já fazia uns dois anos, Suely era uma menina quieta, recatada, antes de casar é claro, mas talvez a busca incessante pelo prazer depois de sua descoberta, tenha a tornado o maior sonho de consumo dos homens daquele lugar.
Plenos dezoito anos, na flor da idade, um corpo maravilhoso, uma pele dourada pelo sol, não perdia em nada para as morenas dali, que eram famosas pela sua beleza exótica que desbancava em vários quesitos, senão todos, as loiras do sul do Brasil, mas essa não, essa tinha muito de morena na sua natureza, no seu corpo, no seu olhar, e trazia consigo a cor da mídia, os olhos azuis esverdeados e o sabor do proibido.
Um marido ausente, tadinho, vivia para trabalhar e manter a casa, não saía de cima dos livros nem mesmo aos finais de semana, e a deixava sozinha, tadinha, pobre solidão...
Eram os opostos, ele, gordo, chato, falastrão, estranho, FEIO! Não sabia falar o que uma mulher gostava de ouvir, ele gostava de números, não fazia um elogio, não chamava de meu bem, mas colocava comida em casa, pagava todas as contas, comprava tudo o que a mulher precisava, não pegava em sua mão, não acariciava os cabelos, não fazia suas vontades, mas comprava-lhe roupas, bons perfumes, sapatos novos, não procurava saber do seu dia, nem compartilhava seus valores, mas lhe dava dinheiro e abastecia seu carro. “Do que mais ela precisa?  Eu dou de tudo” – Ele dizia, mas o tudo é muita coisa, e será que isso tudo é muita coisa?
Seu Tonho Boi era um lusitano de família rica em Portugal, mas que perdeu tudo em Angola nos tempos da guerra civil, lá, em Angola, ele era fazendeiro, tinha quatro mulheres, dentre elas duas negras, casado mesmo era com uma só, as outras, se é que assim pode se dizer, viviam no que conhecemos hoje por União Estável, passou diversos anos “batendo cabeça” na Europa, até que se cansou e resolveu vir morar no Brasil, escolheu um lugar longe da capital, e o mais longe possível de algum lugar onde tivesse negros, como ele odiava essa raça!
Sua família todinha foi decapitada, depois de estupradas suas filhas e mulheres e sido castrados seus filhos, os negros fizeram questão de queimá-los com uma cruz em brasa no peito depois de amarrá-los, como vingança ao que fizeram os portugueses com seus antepassados.
Certa feita, quatro rapazes da capoeira foram comprar pão em sua mercearia logo cedo estavam indo a um batizado, e enquanto dois entraram pra comprar pão, outros dois ficaram esperando do lado de fora, tocando berimbau e cantando cantigas de capoeira. Como se sabe as casas dos centros das cidades dos sertões nordestinos são sobrados, e seu Tonho morava num desses, no andar de cima era sua casa com uma modesta sacada, e na parte de baixo, sua venda. O local onde os rapazes estavam tocando berimbau, ficava exatamente abaixo da janela do quarto de seu Tonho.
Seu Tonho assustado, acordou com um pulo, olhou para os lados, suspirou fundo, tudo estava bem, com exceção daquela música maldita! Com um pulo levantou da cama foi direto ao filtro e tomou tanta água quanto pode fazê-lo rapidamente, já estava de bexiga cheia. Puxou seu penico de baixo da cama, que estava meio, e fez a maior força que pôde para completá-lo, conseguira, os rapazes ainda estavam debaixo de sua sacada, e o penico já estava cheio... Ele pôs a cabeça pra fora e inquiriu com seu sotaque luso-enrolado:
- Bom dia Muqueca! Estais a tocar musica de preto?
O rapaz olhou pra cima, abrindo a boca para responder, quando caiu-lhe, sujando sua roupa branquinha que sua esposa havia engomado um dia antes para o batizado, um penico abarrotado de urina!
- Isso é mijo!!! Féla da puta!!!
- Isto é pra abrires os olhos, e puta é vaca que lhe pariu e o corno que lhe amassou seu preto desgraçado!!! Nunca tinha nada contra ti até vires a cá provocar-me com esta sinfonia do demônio!!!
A essa altura, a rua já estava repleta de gente que parou pra assistir a algazarra em frente a venda de seu Tonho.
Os dois rapazes que estavam na padaria saíram para ver o que estava acontecendo.
- Desça aqui seu racista fi d’ua égua rampera!!! Corno de três quenga!!! Desça aqui que eu quero lhe rancá esse seu pinto murcho aposentado!!!
O português não deixa barato:
- Pinto murcho é um caralhos! E quenga é a senhora sua mãe que vem toda a noite se deitar comigo, queres ver, vou chamar, ô Maria, sua rapariga, a bicha de seu filho estais a lhe chamar!!! Maria!!!
O português gesticulava muito, parecia que as mãos falavam por si só, tinham vida própria, ele se debruçava sobre a proteção de sua varanda, parecia querer alcançar o rapaz que estava no térreo.
- Bote moral de hômi seu caba safado! Que minha mãe num dá ousadia a cachorro!!! Tu deve tá bem esquecido que amanhã é dia de feira! – diz Muqueca, o capoeirista. – Amanhã eu lhe pego numa tocaia seu desgraçado! Seboso!
- Ai, eu vou abrir um Boletim contra você, seu sem vergonha! Vamos ver! – Indignado o português entra, bate a porta que dá acesso à varanda.
E o povo da rua se acabava de rir. Se aglomeravam na rua como se fosse ritualísticamente, sempre da mesma forma; um que está passando pára, chama o outro, quem está em casa olha pela janela, se debruça, ligam para os vizinhos, ainda mais quando as promoções de celular avassalam o mercado e possibilitam ainda mais a comunicação, e parece que a cidade fica ali, na expectativa de assistir à um novo espetáculo humorístico ou de tragédia ao vivo e gratuito.
Mas depois tudo volta ao normal, tudo, tudo se lembra, muitas mágoas se esquecem, outras não. A vida volta ao normal.
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 04/07/2010
Código do texto: T2358254

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Sobre o autor
Graciliano Tolentino
Bertioga - São Paulo - Brasil
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Graciliano Tolentino

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