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O FRIO, O SERTÃO - CAPÍTULO III

Era o que corria nas bocas, que andavam nos becos que ouvia-se nas vozes, que se perdia tempo quando se contava, que se dizia rumores.

Se falava em amores em pecado, pobres das beatas que viveram para rezar, pobres de suas bocas que só serviram para maldizer da felicidade dos outros, pobres de seus corpos que nunca foram tocados como queriam.

Eram as mais bárbaras imagens de orgia que assombravam as mentes dessas mulheres a cada barriga que crescia nas moças jovens, a cada ruga que aparecia em suas faces, a cada casal de adolescentes que andavam felizes nas ruas, a cada beijo de amor flagrado, a cada pai nosso que rezaram sem conforto, a cada mão que elas viam entrar por entre as saias das “mocinhas” sem nunca ter tido o mesmo, sem nunca ter sonhado o mesmo, sem nunca ter vivido o mesmo.

Um bom homem para casar, manter a casa, criar seus filhos e pôr alimento em casa. Ser sua serva, para todo o sempre, até que a morte os separe, assim disse, assim jurou, assim viveu.

Mesmo com os hematomas no corpo quando seu macho chegava bêbado em casa, ou então quando ia buscá-lo no boteco, mesmo com as amantes que viviam a lhe provocar com os presentes que lhes ornamentavam o corpo, mesmo com o esquecimento, o medo, as noites sós, o esquecimento, mesmo assim soube agüentar.

Em nome da moral e dos bons costumes aquela gente sabia discriminar, e como fazia isso bem! Como fazia! Triste era tentar ser feliz, o certo era ser triste.

- Comadre, tu nem sabe! Sabe a fia de dona Belô?!?

- Sei não Mulé! Diga o que é!

- Já tá usada!

Usada... Bom termo, sem dúvida alguma, para se referir a uma garota que começou a viver a sua sexualidade. Velhas inúteis, gostaria que a terra lhes engolisse antes que pudessem disseminar essas sementes entre os demais!

Velhas ridículas, se debruçam nas janelas para verem os homens passarem sem camisa na rua, suados, vindo da partida de futebol! Velhas malditas, que se masturbam assistindo a filmes pornôs enquanto os netos estão na escola!

- Comadre! Você viu a mulher que o fio de Dona Zeferina arranjou?

- Não mulé!

- Apois, um rapaz daquele, estudado, bonito, educado, com aquela esmoler! Mulher que todo homem já conhece dos pé a ponta, da ponta aos pés!

Quantas qualidades... Quanta hipocrisia... O Sertão por trás das câmeras e das festas de São João, um povo muiiiito acolhedor! Pessoas, sem dúvida, maravilhosas! Pessoas que com toda a razão são condenadas por si próprias a morrerem de sede e de fome!

As beatas se amotinavam nas janelas em busca de alguma nova notícia, perdiam dias ali, se vestiam de negro, arrastando os pés, aqueles olhares inquiridores, olhares sombrios, buscavam maldades para contar, intrigas para fazer, carregavam o terço em suas mãos, indo rezar, pedir perdão das maldades que praticam, enganando a si mesmas, na busca de um alívio que não vem, não virá e nunca veio.

Arrastam as alpargatas naquelas pedras no centro da cidade rumo à Igreja, o véu cobre o rosto, as mentiras encobrem suas vidas...

Graciliano Tolentino
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 06/07/2010
Reeditado em 15/11/2019
Código do texto: T2362457
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Graciliano Tolentino
Bertioga - São Paulo - Brasil
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Graciliano Tolentino

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