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TEMPO DE NOSTALGIA

Pela primeira vez acordar as seis horas da manhã seria o marco de uma história esperada a sete anos com tanta expectativa e entusiasmo. O despertar do relógio a corda, num volume nunca escutado antes,  foi a primeira mudança que percebi naquela manhã de verão com gosto do outono que se aproximava e que marcava uma nova etapa na minha vida. A mesa do café era simples como sempre, pão caseiro feito em forno de barro aquecido com madeira do quintal, café preto passado fresquinho no coador e servido em copo de massa de tomate comprado em mercado de bairro, ovos mexidos de galinha caipira criada solta no chão batido do terreno de nossa propriedade e frutas da estação colhidas do pomar farto e punjante.
Naquele tempo, o amanhecer do dia, no final do verão, era ter o privilégio de acordar com o céu ainda turvo, um friozinho de arrepiar os poucos pêlos que cobriam meus antebraços e minhas canelas e coxas magrelas e logo em seguida contemplar a beleza do nascer de um sol amarelo, brilhante e quente, um contraponto pra quem momentos antes já vestia um modesto agasalho de moletom.
Escuto pela primeira vez o chamado da responsabilidade na voz de minha mãe que me apressava para que eu não chegasse atrasado no meu primeiro dia de aula. Não. Chegar atrasado não estava nos meus planos naquele dia, aliás nunca passara na minha cabeça tamanho descaso, contrário a isso, queria eu ser o primeiro a chegar na escola e ouvir o bater do sinal que me levaria a um mundo ainda desconhecido, mas muito esperado.
A correria da criançada, o choro desesperados de algumas delas, os olhares preocupados dos pais que deixavam suas crias, os gritos frenéticos dos professores que pediam silêncio e calma aos alunos, o comportamento medroso e tímido de alguns meninos e meninas, inclusive o meu, a luta da criançada para ser o primeiro da fila e poder pegar na mão da professora e ser levado para sala de aula, seguido pelos rebentos que não paravam quietos naquele curto caminho, foram as lembranças que guardei daquele dia e que carrego comigo até os dias de hoje.
 Não lembro mais o nome de minha primeira professora, mas me lembro de quão paciente e bondosa era ela. Seu olhar sério, seu sorriso aberto, sua fala mansa, sua gesticulação sutil e por vezes engraçada me deixavam estonteado de tanta veneração e simpatia. Lembro da melodia das cantigas ensinadas por ela, embora esquecida a letra. Lembro também da cartilha “Caminho Suave” que usávamos para dar os primeiros passos à afabetização. Ficava encantado com as ilustrações didáticas que me ensinaram o “a” da abelhinha, o “b” de bola, o “c” de casa, o “m” de macaco, o “p” de pato, o “r” de rato e o “s” de sapo. Nas datas comemorativas éramos preparados para homenagear mães, pais e professores, com apresentação de cantos ou danças que nos fazía expressar toda nossa gratidão e amor que sentíamos pelas pessoas homenageadas.
Assim foram dias após dias, entrando ano e saindo ano, ora com um professor, ora com outro, numa e noutra sala de aula, com os mesmos ou com novos amiguinhos e até mesmo em novas escolas. O estudo foi criando força e a alfabetização falada e escrita foi se tornando cada vez mais realidade.
As férias escolares eram uma nascente de saudades com um percurso curto e rápido e repleto de novas estórias para se contar, cuja foz era a nova sala de aula, de um novo ano letivo, onde podiamos despejar com toda emoção, através de textos narrativos solicitados pela mais nova professora, nossas aventuras e feitos do período em que ficávamos longe da escola.
Sempre foi assim. Todos os anos em que regressavamos à escola novos textos deveriam ser criados para expressar todo o sentimento que nos enchia a alma e nos impulsionava cada vez mais às profundezas do conhecimento.
Hoje, quase trinta anos depois da formatura de meu ensino médio, conhecido na época por segundo grau ou colegial, sentado numa cadeira com assento estofado, uma lousa a frente que agora de preta passou a ser verde, sendo deveras substituida por equipamentos tecnológicos de som e imagem, sem compaixão dos coloridos e finos gizes de argilas que tando me fascinavam, encontro-me na Academia de Letras de uma Universidade, escrevendo mais um texto, com o propósito de expressar todo meu sentimento, sobre fatos, coisas ou pessoas que me remetem a uma gostosa nostalgia de ter vividos em tempos de outrora, mas que os valores aprendidos se perpetuam no tempo e jamais podem ser esquecidos. O que devo escrever mesmo?
Paulo Roberto Fernandes
Enviado por Paulo Roberto Fernandes em 13/03/2018
Código do texto: T6279135
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Paulo Roberto Fernandes
Joinville - Santa Catarina - Brasil
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