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Meu Rei

Meu Rei
Jajá de Guaraciaba

Meu primogênito é um rei. Chama-se Anderson Aparecido da Silva. Nasceu há mais cinquenta anos com paralisia provocada pela falta de oxigenação nas células cerebrais. Não quero que o classifiquem como deficiente mental e nem que digam que ele é um coitadinho, pois ele é inteligente, alegre e sobretudo feliz. Não consegue transmitir seus anseios por falta de coordenação motora e não por falta de raciocínio. Ele não é totalmente dependente: vai ao banheiro sozinho, troca de roupas e coloca os tênis. Só não consegue amarrar os cadarços. Sou seu súdito. Atendo todas as necessidades que ele não consegue realizar, tanto as físicas quanto as psicológicas. Não deixo faltar nada para ele. Todas as manhãs eu faço café, vou à padaria e nós fazemos juntos a refeição matinal. De segunda a sexta-feira eu dou banho nele por volta das dez horas para ele ir à Escola Especial. Antes, porém, cuido do asseio bucal e aparo as unhas bem como rapo a barba dele pelo menos duas vezes por semana.
Quando a condução chega, em torno das onze horas, eu o conduzo pelo braço e o coloco no interior dela donde ele segue alegremente para o salutar convívio de seus pares.
Por volta das dezessete horas ele chega alegre, porém cansado. Eu o recebo e o conduzo para o interior da casa. Ele vai ao quarto dele, tira o tênis e as meias e de chinelo vai à sala assistir à TV. Ele gosta de “Malhação”, de novelas e de esportes. Sempre que há jogos de futsal lá no Ginásio de Esportes eu o levo para assistir. Ele possui mais de sessenta medalhas que os times deram para ele por ocasião do término de cada campeonato no transcorrer de tantos e tantos anos que lá comparecemos.
Ele janta as dezenove horas mais ou menos. Depois de tomar um cafezinho ou comer alguma sobremesa eu escova os dentes dele. Às vezes ele vai dormir cedo.
Às quartas-feiras, como tem futebol na TV, ele vai dormir mais tarde.
Aos sábados e domingos, quando não recebemos visitas, eu cuido da higiene dele na parte da tarde.
Sempre que saio para alguma reunião eu o levo. Levo também às festas e viagens que faço para Minas Gerais e às praias do litoral sul de São Paulo. Meu rei é feliz dentro do mundo dele.
Ele entende tudo o que ouve, porém não consegue transmitir seus pensamentos devido à dificuldade de se expressar. Eu procuro ter paciência para entendê-lo quando ele quer e se esforça para transmitir alguma mensagem.
Sempre ouvi dizer que se nasce no nosso lar alguém com deficiências é porque temos capacidade para cuidar dele. E isso é verdade!
Não são os meus já cansados e mais de setenta anos de idade que vão me impedir de zelar do meu rei. Cuidarei dele até exaurir-me completamente, e esses cuidados podem prolongar por mais alguns anos ainda. Quando? Só Deus quem sabe, pois foi Ele que “programou” tudo isso. Vamos esperar para ver até aonde eu posso chegar, mas garanto que não esmorecerei assim tão facilmente!
E viva o meu rei!
               
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 03/11/2019
Código do texto: T6786631
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
719 textos (78155 leituras)
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Jajá de Guaraciaba