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Sociedade burguesa – Estado, Igreja e Ideologia.

“fábulas deveriam ser ensinadas como fábulas, mitos como mitos, e milagres como fantasias poéticas. Ensinar superstição como verdade é uma coisa terrível. A mente infantil aceita e acredita nelas, e apenas por meio de grande dor e, talvez, tragédia, pode anos mais tarde se livrar delas.” Hipátia de Alexandria.
                   
O que é a ideologia se não àquelas ideias, valores e visão de mundo das classes opulentas que, assumidas como suas pelos trabalhadores, pelos de baixo, os faz ser dominados na medida em que os aliena da sua própria realidade. Exemplo, a meritocracia faz os trabalhadores pensar que, se estão desempregados, passando fome, é sua culpa, por seu fracasso e/ou agruras e adversidade da própria vida, Pensar assim, só beneficia os ricos, uma vez que não transforma os explorados e oprimidos em rebeldes contra os seus opressores e exploradores, àqueles que os escravizam pelo trabalho, e cada vez mais diminuem as oportunidades e meios de ascensão social, mas que por meio da disseminação dos valores e ideias da meritocracia, suscitam esperanças naqueles que sofrem do abandono a sua própria sorte, à mercê da ganância e crueldade dos ricos, sempre cada vez mais ávidos por acumular mais dinheiro e riqueza. Essa resignação só é completa quando se confunde à resignação cristã, ao canalizar suas esperanças na fé. Não por outro motivo que o cristianismo, enquanto tutor ideológico das classe subalternas, é a religião do Estado por excelência, e este, por sua vez, é artifício de dominação criado pelas classes que detém o poder, isto é, o poder é o próprio Estado, enquanto autoridade – ou modelo de autoridade – e detentor do monopólio da violência.
Efeito disso todos nós conhecemos. Num período de crise, como essa que estamos passando, o trabalhador assume como culpa sua estar desempregado, passando por piores privações, vendo sua família sofrer junto com ele. É nesse momento que ele vai buscar consolo na religião, acreditando que sua fé irá fazer abrir as portas para novas oportunidades de emprego, que sua fé irá lhe proporcionar dias melhores, ou seja, a solução de seus problemas ele deposita todo na sua fé. Com isso ele está longe de se insurgir, se rebelar contra um sistema cruel e perverso criado pelos ricos, que o oprime, o marginaliza. Quando muito, frustrado, esse trabalhador vai buscar subterfúgio nas drogas, na bebida, provocando ainda mais transtorno para sua família, e até mesmo dissolução dos laços familiares.
Eu, um dia, perguntei para uma pessoa ordinária se ela não conseguia ser egoísta e mesquinha, ela respondeu que se não usasse de esperteza com as pessoas, ninguém iria dar-lhe de comer quando ela mais necessitasse, além do mas as pessoas faziam o mesmo com ela. Ela entendeu muito bem minha pergunta, e eu deixei claro não ter a intenção de ofender ou constrange-la com tal pergunta, e penso que do seu ponto de vista sua resposta foi coerente. Mas o que esperar de uma pessoa “sem instrução” – que é a forma como elas se reconhecem –, portadora daquele tipo de inteligência prática, imediata, direta, pré-reflexiva, cuja a única utilidade é resolver os problemas do dia a dia, de sua sobrevivência? Eu, ao contrário de reagir, respondo por ser capaz de refletir sobre meus atos, ter clareza de como funciona a ordem da sociedade capitalista, do que ela faz parte, suas relações de causa e efeito, e, além de tudo, ser capaz de ter responsabilidade por minhas atitudes. Portanto, muito diferente do meu interlocutor que não tem noção que, com sua atitude ao reagir, só faz confirmar a ordem vigente, que dá continuidade àquela espécie de atitude, àquela espécie de mentalidade, como uma correia de relações infindáveis de ação e reação inquebrantável, eu respondo à própria ordem vigente, responsável por este tipo de atitude, de mentalidade, ordem vigente esta que perpetua-se e reproduz-se por meio dessa forma de ver e interpretar o mundo ao seu entorno, mas que só favorece os donos do mundo.
Vou aprofundando ainda mais na minha posição ilustrando-a com um fato histórico. Martinho Lutero ao fazer uma crítica contundente à Igreja Católica não imaginava que iria abalar toda a estrutura da ordem feudal. Digo, crítica contundente, porém inócua, na medida em que tinha como intenção tão somente representar um movimento de reforma dentro da Igreja que, com o passar dos anos, vinha criando corpo. Tanto foi essa sua intenção que uma vez que provocou uma insurreição popular incontrolável e sangrenta, que se espalhou por toda Europa e perdurou por décadas, o monge alemão, agostiniano e professor de teologia germânico, teve que se retratar perante o Papa.
Ora, exatamente o que o Monge não conseguiu perceber foi que ao inventar o individualismo, naquele momento útil para interpretar a Bíblia Sagrada, com objetivo de contrariar as orientações da Igreja Católica como única autoridade por Deus encarregada de árdua tarefa, ele estava favorecendo os interesses de um grupelho de ricos comerciantes, que eram marginalizados por essa mesma ordem feudal, responsável por disseminar valores negativos sobre as pessoas que viviam do comércio, as fazendo ser vista por todos como gente sem caráter, gananciosas e usurários, trapaceiras, mesquinhos, individualistas e desumanos – nada diferente realmente do que hoje percebemos  –, ao proporcionar oportunidade única deles usarem o invento de Lutero para emplacar e disseminar seus valores de empreendedorismo, sem o qual não era possível desenvolver o comércio e também subverter essa ordem social que os colocava à margem da sociedade.
Não por acaso que todo fundamento da Filosofia Liberal é erigida encima do individualismo luterano, que faz crer que o indivíduo é fonte de todo significado, de todo conhecimento e de toda moralidade, estes são os dois aspectos mais importante da razão humana, por que diz respeito tanto à aspecto cognitivo, de como o indivíduo percebe o mundo, quanto à aspecto moral, que é como o indivíduo se comporta nele. Isso não passa de uma bobagem se entendemos que todo conhecimento é uma construção coletiva e não existe moralidade individual. Todos nós estamos enterrados nessa bobagem, acreditamos criar valores, é uma ilusão da realidade o objetivo ético por ser uma contradição em termos, em outras palavras, o objetivismo não pode ser ético, e se for ético não pode ser objetivo. Isto revela o paradoxo da nossa autopercepção do mundo, o que implica que percebida a individualidade desvinculada dos seus vínculos sociais que se cumpre essa função do poder, na medida em que esconde ao travesti-la com a capa de parecer justa a produção da desigualdade social. Então, a principal justificativa do capitalismo para as desigualdades é a meritocracia. Não obstante, que munido dessa Filosofia Liberal, que nessa primeira fase subversiva precisou ser anticlerical, mas que numa segunda fase, depois de terem tomado o poder político da Igreja Católica, por meio das Revolução Burguesa, para instituir nova ordem social, essa filosofia passou a usar esse poder ideológico da Igreja – agora na sua forma, luterana, calvinista, etc., ou seja, o protestantismo, mas sem abandonar sua base escolástica da Igreja Medieval – como uma força reacionária e conservadora.
Vou tentar mostrar com mais detalhe, se entendermos que no começo do século XIX, o conhecimento filosófico teve como base uma concepção fundada num conceito de ordem, advinda, em grande parte, do conceito de Deus ou Espírito Absoluto que proveu base da formação a todas as escolas filosóficas desse período. Não foi linear, e muito menos implicou, quando enfraquecido do desaparecimento do pensamento religioso e do poder da Igreja, a emergência do capitalismo concorrencial e da ciência, mas fomentou as condições para uma revolução científica ou a inversão do sistema cognitivo com o racionalismo-empirismo. Apesar de que a autoridade não faz parte da sociedade, porém é necessária à sua manutenção. Logo, se o poder absoluto do Estado emergiu do conceito de desordem como uma necessidade de sua negação direta, do conceito de ordem, isto no universo do proprietário, surgiu Estado constitucional. Portanto, de qualquer forma, fazem-se necessárias a ordem e o Estado para proteção e manutenção da propriedade privada.
O que eu quero dizer com tudo isso? Não se pode formular uma crítica ao capitalismo sem partir de uma crítica as suas instituições burguesas, uma vez que são as instituições sociais, em qualquer época, em qualquer ordem social, que moldam nosso comportamento, nossa forma de pensar, de interpretar o mundo. Explico, o ser humano nasce com uma capacidade inata de pensar, querer e sentir, mas o conteúdo é a sociedade que lhes fornece, por meio das suas instituições como religião, família, economia, política, direito, ciência. Portanto, anterior a qualquer ser humano somos produtos da sociedade, nós não a criamos, somos por ela criado, sua existência é a própria condição da nossa vida gregária. O individualismo é simplesmente uma invenção, uma mentira, da mesma forma que o livre-arbítrio. Fomos moldados acreditar nessa ficção que é o livre-arbítrio, ora, toda base do nosso Direito é formulada a partir da noção de que somos responsáveis por nossas atitudes. E como concebe-lo sem a noção de indivíduo? Na própria Bíblia fornece base teológica a essa noção sem a qual não faria sentido o mito do Pecado Original.
A neurociência descobriu que o nosso cérebro decide o que você irá fazer aproximadamente meio segundo antes de ser possível acreditar que é você mesmo que está opinando, quer dizer, é a mente que recebe a decisão do seu cérebro, e não ao contrário, isto implica admitir que o livre-arbítrio, em grande parte, não passa de uma ilusão, uma construção social, todavia, a neurocientista Claudia Feitosa-Santana, no seu vídeo no YouTube da Casa do Saber, de forma contraditória – uma vez que reconhece ser uma crença quase que universal na nossa sociedade –, adverte que crer no livre-arbítrio ou participar do seu debate influencia positivamente no comportamento humano, nos tornando mais honesto, menos agressivos, ajuda a promover a cooperação e aumenta a compaixão, “ajudando a construir uma sociedade mais saudável”. É compreensível sua contradição se pensarmos em se tratar de um dogma a crença de sermos dono das nossas escolhas – só comparável a crença no dinheiro, que depende da confiança de todos –, cuja a crítica desestrutura toda organização da nossa sociedade, do Legislativo ao Judiciário.

Fontes:
SOUZA, Jessé – Ilusão do Liberalismo. Vídeo do YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=Z_Ug6i9XdEs&t=106s.
FERREIRA, Andrey Cordeiro. Poderes Científicos, Saberes Insurgentes: Rumo a uma Ciência Social Dialética e Antissistêmica.
FEITOSA-SANTANA, Cludia – A Ilusão do Livre-Arbítrio – Vídeo do YouTube – Casa do Saber - https://www.youtube.com/watch?v=4r4wFuOA8kg.
BAKUNIN, Mijail – Dios y el Estado: Nota sobre Rousseau – Obras Completas. Vol. IV
George Gonçalves de Leão
Enviado por George Gonçalves de Leão em 06/11/2019
Reeditado em 06/11/2019
Código do texto: T6788203
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George Gonçalves de Leão
Macapá - Amapá - Brasil, 50 anos
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