Um conto sem vigário

Eu vim de Piripri,

Onde babaçu abunda,

Notre-Dame tem corcunda,

Beethoven tocava em Si.

E tanto lá como aqui,

Poeta é persona grata.

E embora não seja a nata

Da alta sociedade,

Pode rimar à vontade,

Colarinho com gravata.

 

Também fazer serenata

Em noite de lua cheia,

Calçar sapato sem meia,

Vestir camisa regata.

Minha cidade é pacata,

Não tem ladrão nem bandido,

Niguém namora escondido,

Nem a mulher do vizinho.

Basta uma taça de vinho,

E o caso tá resolvido.

 

Até hoje inda duvido

Da estória do vigário,

Que no sexagenário,

De um corno assumido,

Entrou sem fazer ruído,

Logo depois do sermão,

Com uma vela na mão,

A outra mão na batina,

E um pote de vaselina

Pra concluir a missão.

 

Quem me contou foi Adão,

O sacristão da igreja,

Que até hoje corteja

A dama da lotação.

Se é mentira ou não.

Se é indício sem prova.

O padre levou pra cova

De lembrança, na surdina

O pote de vaselina

E a batina seminova.

Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 10/11/2021
Código do texto: T7382716
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