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Ninguém tá olhando (2019) - Análise Filosófica

Ninguém tá olhando, é uma série lançada neste ano, dirigida por Daniel Rezende, e conta a história de anjos da guarda ( ou como se referem “angelus”), que trabalham dia e noite com o intuito de salvar os seres humanos de situações perigosas, mantendo-os sãos e salvos. Tem como personagens principais Uli, interpretado por Victor Lamoglia, Greta, interpretada por Julia Rabelo, Chun, feito por Danilo de Moura, Mirian, representada por Kéfera Buchmann, Fred, feito por Augusto Madeira, entre outros.

A história gira em torno de Uli, um angelus inquieto, que descobre que trabalhará em uma repartição pública de anjos da guarda, e junto com Greta e Chun, descobre segredos e subvertem a lógica estrutural desse lugar. Nesse aspecto é muito interessante como a série aborda a ideia do céu como sendo uma repartição pública, onde os anjos trabalham dia e noite, em uma rotina sem fim, agindo de maneira totalmente alienada sobre seu real papel naquele lugar. As regras que regem o ambiente de trabalho giram em torno de orientações que naturalizam um lugar de não-reflexão, onde os anjos apenas reproduzem, e jamais devem questionar o que fazem ou quem manda eles fazerem isso, sem ao menos conhecer o próprio chefe.

Essa característica nos remete ao que Karl Marx aponta quando trata da organização social da sociedade de produção, mostrando que o lugar do trabalhador proletário passa por esse processo de alienação do próprio fazer, tornando-se apenas mais uma peça em uma grande máquina que funciona, independente de quem esteja apertando os botões.

Ainda sobre a alienação, podemos também perceber, que a alienação na série é exposta na maneira como o corpo é tratado, pois os anjos existem apenas para trabalhar, perdendo contato total com sua percepção existencial e corporal, sobre isso, nos escritos de Michel Foucault, ele aponta que o biopoder, ou  seja,  o poder que as instituições exercem sobre o corpo, afetam a maneira como lidamos com nossas próprias escolhas, se vamos ou não viver prazeres, etc.

Uli acaba se tornando o personagem que age de maneira filosófica, considerando que o pensar filosófico passa, segundo Gerd Bornheim, inicialmente por uma confrontação com os pensamentos dogmáticos, e posteriormente, pelo processo de negatividade, onde a existência de quem se expõe ao absurdo e as incertezas do saber, levam-no a dois possíveis caminhos, sendo o primeiro o niilismo, ou seja, a perda total de sentido, e o segundo, a superação da negatividade e a abertura para um saber filosófico, questionador, transformador.

Podemos observar nos diversos personagens aspectos que denotam as fases que Bornheim aponta em sua tese, temos Uli por exemplo, que ao entrar em contato com o mundo, percebe os prazeres da  vida do ser humano, se envolve amorosamente com Miriam, passa se entregar a uma vida de descobertas de novos saberes, em contraposição temos Greta, que ao perceber que o que acreditava era uma mentira, se entrega ao niilismo, se entregando aos vícios de maneira desmedida, desacreditando-se do sentido da existência tanto dela quanto dos humanos. E por fim, temos Chun, que durante boa parte dos episódios, se mantém firme em seus dogmas, tendo maior dificuldade em se abrir para as possibilidades que a dúvida poderia gerar nele.

Outra questão está relacionada com a maneira como a sexualidade e os tabus morais são abordados, sendo abordados durante a série questões como a bissexualidade, a homossexualidade, a liberação sexual, a maneira como aprendemos a lidar com o sexo, etc. Essas temáticas são bastante trabalhadas por autores e autoras como Foucault, Judith Butler, entre outros, que apontam como a sexualidade é muito mais complexa do que aponta a visão tradicional cristã, e ela é constantemente reprimida por esses valores, que utilizam-a como maneira de controlar subjetividades, que devem servir a um ideal divino.

Além desses aspectos, podemos perceber também à partir de uma leitura da filosofia medieval, uma forte referência a um debate que se iniciou ainda  no período da escolástica, principalmente com Santo Agostinho, e se estendeu até os dias atuais. Santo Agostinho escreveu diversas obras, defendendo o pensamento cristão, e em uma de suas obras mais conhecidas, a Cidade de Deus, ele faz uma defesa do reino de Deus como sendo o reino da felicidade, e para demonstrar isso, ele aponta como Roma, que naquele período passava por crises profundas, estava assim devido a acreditar em deuses pagãos, segundo a ótima de Agostinho. Neste livro ele defende entre outras coisas, que o homem que se distancia do reino de Deus, e se entrega aos prazeres da carne e as injustiças dos homens, passa por um processo de decadência espiritual, tornando-se fraco, doente, sendo apenas a reaproximação com o divino, o caminho para a melhora.

Essa defesa nos remete ao que é mostrado na série, onde inicialmente os anjos vivem totalmente voltados para uma vida divina, trabalhando à serviço de uma força maior misteriosa, que facilmente podemos entender como uma menção a Deus, e ao se entregarem aos prazeres da carne, se percebem doentes, frustrados etc.

Nesse mesmo quesito, podemos pensar também em uma contraposição desse pensamento, para tal, Nietszche defende que o pensamento cristão entre outros problemas, acaba por minar a potência humana, pois priva o ser humano de viver os prazeres, seus desejos, e inaugura com a culpa cristã, a noção de que é errado viver segundo suas próprias escolhas.

Essa dicotomia de pensamento pode ser facilmente observada na série, principalmente nos capítulos finais, quando os anjos já decepcionados com as experiências que tiveram, se perguntam se realmente não existe uma força maior misteriosa, e se essa força não está de alguma forma castigando eles, devido a suas escolhas aparentemente egoístas.

A série além de abordar essas questões morais, aborda também uma crítica ácida ao modo como a própria religião se constituiu na história, sendo o cristianismo marcado por cruzadas, lutas de poder político, defesa de regimes escravocratas, e muito influenciada pelo pensamento capitalista. No que se refere a defesa de regimes escravocratas, vale ressaltar que no período das grandes colonizações das américas, o discurso religioso cristão defendia que índios e negros não possuíam alma, logo, poderiam ser escravizados, pois não eram humanos, essa percepção se devia por não seguirem os preceitos cristãos e sim outras religiões. O que decorreu disso foram anos de escravidão, genocídio, e crimes violentos contra essas populações, que levaram a naturalização de um pensamento colonial, onde o negro passou a ser visto como serviçal, e essa percepção se mantém até os dias atuais.

Podemos observar isso no comportamento do Chun, que se mostra muito receoso em contrapor o chefe, ou na outra funcionária também negra, que quando seu chefe branco sai, ela sente o prazer em tomar o lugar dele, mostrando como essas relações de poder são naturalizadas, e o negro escravizado que não tem consciência do processo de racismo que passou, sonha em ser o dono da casa grande, e manter as relações desiguais.

Na questão da relação entre capitalismo e religião, o fato da série abordar o céu como um setor de serviço público, mostra bem como de fato as igrejas se organizam, tornando-se cada vez mais empresas, instrumentalizando o Deus(talvez o Deus atual tenha um $ no lugar do S) , que provê o carro do ano, a casa luxuosa, esse mesmo “Deus” que mantém o status quo desigual entre ricos e pobres, negros e brancos, etc.

Por fim, a série é muito inteligente no sentido em que não fecha nenhuma visão, ela abre espaço para diversos olhares, trazendo uma reflexão de maneira bem humorada sobre diversas questões existenciais, morais, políticas, deixando uma pulga atrás da orelha de quem assiste, pois se o destino é fruto de um ramster andando em uma rodinha, em um grande bingo decrépito e cinza, e Deus é um cara de humor questionável, o que de fato então significa existir, existe uma razão para tudo, ou os existencialistas ateus estão certos e tudo é um grande acaso de angústia?

A série começa com o título “Ninguém tá olhando”, dando a entender que a segunda tese é a certa, mas ao término do oitavo episódio ela acrescenta uma interrogação, tornando a afirmativa um questionamento, deixando a questão aberta, dando um fim genuinamente filosófico, levando em conta que questões que envolvem o transcendente e o imanente moveram a filosofia durante toda sua história, e até os dias atuais isso é refletido nos debates morais da sociedade em que vivemos.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 29/11/2019
Reeditado em 29/11/2019
Código do texto: T6806956
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil, 28 anos
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