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A Pele que Habito.

De imediato a pergunta:
Quem mora nesta pele?
A pele que (eu) habito.
 
Quem é este “eu” que está escondido no título?
...
 
Antes uma observação:
Pedro Almodóvar é um diretor que oportuniza a identificação e empatia, seus textos são inquietantes e instigantes- e as dores, fantasias e sonhos dos personagens refletem a verdade da existência humana e nossas experiências diante da escancarada brutalidade da vida.
Portanto, uma análise deste filme pode ter vários direcionamentos.
Eu escolhi o personagem Vicente (Jan Cornet).
Mas é apenas um olhar. Há muitos outros.
...
 
Quando saímos do útero de nossa mãe é pelo tato que vamos tomando consciência do mundo. É na pele que são registradas nossas primeiras experiências sensoriais, que serão fundamentais para o resto de nossas vidas e farão parte das nossas primeiras lembranças.
 
Podemos pensar no nosso corpo como uma superfície por meio do qual se inscrevem os acontecimentos da nossa história, formando um conjunto de marcas ou sinais- uma espécie de memória afetiva corporal que codifica os fluxos e os vieses da vida, imprimindo-lhes valores e crenças.
 
Anna Freud dizia que" Ser tocado de leve, aconchegado no colo e tranqüilizado pelo tato, libidiniza várias partes do corpo da criança, ajudando a consolidar uma imagem corporal e um ego corporal saudável.”
 
Nossa Imagem Corporal então vai sendo construída na nossa história, nas nossas relações, e se manifesta permanentemente em todas as expressões do nosso corpo, determinando nossos comportamentos involuntários, nossos sintomas, nossos gostos, nossas atrações, nossas repulsões, nossas formas de falar e de dizer das coisas do nosso mundo circundante.
É o que somos “por dentro”.
É como nós nos vemos.
Diferente é nosso esquema corporal, que é a realidade carnal do contato com o mundo físico, que será o intérprete ativo ou passivo da imagem do corpo, no sentido de que ele permite a objetivação de nossas subjetividades.
O esquema corporal nos diz que somos humanos e representantes da nossa espécie, qualquer que seja o lugar, a época ou as condições nas quais vivemos.
 
O filme “A Pele Que Habito” conta a história de Robert (Antonio Bandeiras), um médico cientista, obstinado em suas descobertas científicas e atormentado por experiências de tragédias familiares, quando sua mulher em um acidente de carro, tem seu corpo completamente queimado, ele inicia sua saga em busca de uma pele perfeita que poderia tê-la salvado.
 
Robert nos faz pensar na importância de termos bem nítido em nós a noção da finitude. Entender que vamos viver perdas e  que  na plataforma de nossas existências, haverão chegadas que nos darão alegrias, mas que as partidas também serão uma realidade até que  a vida se complete em nós. 
 
Roberto não elaborou seus lutos, como se no texto de sua existência não existissem frases com pontos finais, e ao contexto se imbricassem apenas a vida e jamais a morte.
O resultado de sua neurose foi o adoecimento e nos seus mecanismos de defesa a vingança surge como uma instância centralizadora de seus recalques. 
 
Vicente aparece em seu caminho quando estupra sua filha e a partir de então uma trajetória de ódio começa a se engendrar e a cruzar suas histórias.
 
O filme aborda com muita sabedoria a questão da identidade.
Como formamos nossa identidade?
Ao contrário do que muitos imaginam não somos seres cristalizados no tempo.
Vamos sendo “moldados” pelas nossas experiências e o que somos é a soma do nosso aparato biológico e as experiências que vão se colando em nossa personalidade.
Somos atravessados por linhas invisíveis que se misturam no tempo e nossa identidade, vai se substanciando, se presentificando e se corporificando como atributo do eu, mas que pode ser alterada até o último dia de nossas vidas, (é bom que seja assim não é mesmo?) já que somos capazes de nos reinventarmos e de reescrevermos nossa biografia, que pode ser revisitada e alterada no decorrer de nossa existência.
 
Lembra do título do filme?
A pele que (eu) habito.
Era Vicente o eu” (a imagem corporal) que habitava aquela pele que o Dr.Roberto havia re-construído e não Vera.

Vera representa a maldade e despersonalização a que estamos sujeitos pela lei selvagem da sobrevivência.
É quando consciente ou inconsciente nossas escolhas podem nos despersonalizar-Vicente escolheu continuar a manter relações sexuais com a filha de Roberto mesmo quando ela gritava para que ele parasse, mas ele continuou.
Vera foi o que o Dr.Robert emoldurou nele (em Vicente) - foi seu invólucro (estrutura corporal) não o que ele era por dentro.
As pessoas e o mundo também nos emolduram com máscaras, fazendo-nos ser (quando permitimos) o que não queremos ser, e muitas vezes esquecemos que o que somos de  verdade ninguém tem acesso se não deixarmos.
 
Para Nietzsche as máscaras tornam a vida mais suportável, ao mesmo tempo em que a deformam, e, finalmente, ameaçam destruí-la.
Vicente, afirmou sua realidade que era insuportável, vivia o real brutal e dolorido que o médico lhe impunha. Mas não se resignou nunca, mesmo que tudo fosse fatalmente trágico.

Na arte Vera (Vicente) expurga as lágrimas contidas, os afetos e risos reprimidos, os sonhos perdidos.
Escrever e fazer esculturas abria um canal de expressão para que suas emoções subterrâneas escoassem e humanizassem seus dias, que mesmo sendo de um peso terrível, se tornavam suportáveis e mais leves.
 
E Vicente sobreviveu aos horrores a que fora submetido.

Quando ele entra na loja da mãe...para mim foi  "à " cena do filme...
Voltar pra casa... como é bom voltar para casa...algo tão comum no nosso cotidiano,mas para Vicente foi retornar do inferno... para o céu.
 
A grande reflexão que o filme apresenta é:

- Diante de tantas variáveis que o mundo nos apresenta que nos fragmentam e nos dissociam, o que importa de verdade- são as nossas constantes.
São os vínculos que permanecem que deixam os rastros para nossa volta para casa
São os fios que nos mantém ligados ao que verdadeiramente tem valor na vida e dão a inteireza ao nosso ser.
E Vicente tinha sua mãe, tinha a amiga homossexual.
Quando tudo estava contra ele. quando já tinham mudado até sua estrutura-seu corpo- ele tinha o principal-Sua constante -e foi seguindo este “fio” que ele voltou à vida.
 
Fica a pergunta:
 
Quais são as nossas constantes na vida?
 
Quem seria este fio que permanece apesar de tudo como elos-apenas esgarçados pelo destino-mas que jamais se rompem no tempo?
 
Quem nos reconheceria quem de fato somos –mesmo se alguém nos emoldurasse em outro sexo e outro corpo,
e choraria nos abraçando com amor e saudade pelo nosso retorno?

 
Maria Poesia / 04.01.2012

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Maria Poesia
Enviado por Maria Poesia em 04/01/2012
Reeditado em 10/02/2013
Código do texto: T3421619
Classificação de conteúdo: seguro

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